Nova York está se despedindo dos antigos orelhões. Os hubs – como são chamados os novos aparelhos – continuarão fazendo ligações, mas agora contarão com wi-fi, tablet embutido e USB de recarga. No Brasil, a Anatel anunciou que um terço dos atuais 900 mil orelhões seriam modernizados para oferecer pelo menos acesso wi-fi ao público. Por enquanto, nem sinal da promessa. Enquanto os orelhões à moda antiga continuam funcionando em território nacional, Sérgio Cintra, 58 anos, morador de Atibaia, a 50 km da capital paulista, permanece obstinado em aumentar sua estimada coleção de fichas telefônicas. A paixão começou ainda na infância, nos anos 1970. “Foi quando percebi que tinha fichas de diferentes Estados”, afirma. A expressão “caiu a ficha” vem desta época. Quando a ligação era completada, o aparelho engolia a ficha.

COLECIONADOR DE FICHAS TELEFÔNICAS
Hoje ele tem 70 exemplares, que ficam guardados em potes de vidro. Sérgio tem pelo menos uma ficha de cada Estado e algumas de outros países, como Alemanha, Portugal, Estados Unidos, Argentina e Paraguai . “Algumas são repetidas, que deixo guardadas para trocar”, diz. No meio da coleção, o vendedor de charretes tem uma ficha de estimação. Certa vez, numa viagem a negócios, Sérgio chegou a Poço Redondo, no interior de Sergipe. Sérgio avistou um orelhão. “Naquele lugar, o povo, bem simples, tinha o costume de deixar duas ou três fichas em cima do telefone”, conta. “Era para o caso de alguém que precisasse fazer uma ligação e estivesse sem ficha”, lembra. “Foi aí que vi a ficha mais diferente de todas”. Ela levava o logo da extinta Telecomunicações de Alagoas S.A. (Telasa). Ele não teve dúvidas: levou a fichinha. Mas a euforia durou pouco. “Acabei me sentindo muito culpado por ter levado a ficha”. O homem já estava em outra cidade quando a ficha caiu. Voltou a Poço Redondo e depositou sete fichas em cima do orelhão. “Mas fiquei com a da Telasa  para minha coleção”, explica.

As fichas telefônicas surgiram no Brasil nos anos 1960. Havia diferentes tipos para ligações locais e interurbanas. Elas levavam em seu verso o nome da companhia. Nos anos 1990, as fichas foram substituídas pelos cartões telefônicos, para diminuir os custos de manutenção e reparo dos aparelhos públicos. Sérgio conta que é difícil encontrar o que ainda não tem mesmo em sites de venda de produtos para colecionadores.  Ele ensaiou começar uma coleção de cartões telefônicos, mas desistiu logo de cara. “Meu negócio é mesmo a ficha”, diz. E desliga.