A história é curiosa, mas as fontes disponíveis não permitem tratá-la como verdadeira. O brigadeiro Eduardo Gomes, candidato à Presidência da República em 1945 e 1950, realmente levou um tiro de fuzil durante a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, em 6 de julho de 1922. O projétil o atingiu na região da virilha e provocou uma grave fratura no fêmur esquerdo. Documentos militares e biografias registram esse ferimento, mas não há fonte médica ou histórica confiável dizendo que ele tenha perdido um testículo — muito menos os dois.
Na eleição presidencial de 1945, Eduardo Gomes ganhou uma campanha, organizada por mulheres, que usava o slogan “Vote no Brigadeiro, que é bonito e solteiro”. Para arrecadar dinheiro, suas apoiadoras promoviam eventos e vendiam doces. Foi nesse contexto que o docinho de chocolate, que conhecemos como brigadeiro, acabou definitivamente associado ao candidato.
É aí que fato e folclore começam a se misturar. Espalhou-se uma história segundo a qual o tiro de 1922 teria atingido os órgãos genitais de Eduardo Gomes. A partir dela, nasceu uma maldade irresistível: o doce seria chamado de brigadeiro porque, assim como o candidato, “não tinha ovos”. O formato de bolinha representaria o testículo perdido [existem versões antigas da receita do brigadeiro que levam ovos]. O problema é que as versões não combinam entre si: algumas dizem que Eduardo Gomes perdeu um testículo; outras, os dois; outras apenas afirmam que ficou ferido nos órgãos genitais.
Fontes antigas trazem uma surpresa ainda maior. Essa história não circulou durante a eleição de 1945, embora hoje seja comum encontrar textos dizendo que ela teria sido inventada pelos adversários políticos do candidato. Os jornais da época registraram ataques, boatos e acusações contra Eduardo Gomes, mas nada a respeito dos testículos ou sobre o brigadeiro ser um doce “sem ovos”.
O linguista e etimólogo Mário Eduardo Viaro também investigou a origem do nome do doce e classificou a história do ferimento nos testículos como lenda. Segundo sua pesquisa, explicações desse tipo começaram a aparecer com força apenas na década de 1980.
