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A trajetória histórica da Enciclopédia Britânica

A Enciclopédia Britânica, a mais antiga do mundo na língua inglesa, anunciou na última quarta-feira o fim de sua edição impressa. Depois de 244 anos de história, a empresa decidiu focar na versão online, para concorrer diretamente com a Wikipédia. Uma versão básica está disponível gratuitamente no site da Enciclopédia e, para os donos de iPhone e iPad, há um aplicativo oficial também de download grátis. Para ter acesso ao conteúdo completo, o usuário deve pagar uma taxa de 70 dólares anuais.

A primeira Enciclopédia Britânica foi produzida em 1768, em Edimburgo (Escócia), por Andrew Bell, Collin Macfarquhar e William Smellie. Tinha 2.659 páginas, divididas em três volumes, que abrigavam um resumo de todo o conhecimento humano até a data. Com artigos de nomes hoje reconhecidos como Benjamin Franklin e John Locke, o contexto histórico era o auge do iluminismo, e as ideias antropocentristas transpareciam no conteúdo. Definia mulher, por exemplo, como “a fêmea do homem”.

Só na segunda edição, lançada em 1784, que tópicos de História e Biologia foram adicionados. Isso fez com que o número de volumes passasse para 10 e a quantidade de páginas atingisse pouco mais de 8.500.A multiplicação da ciência no século XIX fez com que fossem lançadas cinco edições da enciclopédia. A última, de 1889, considerada uma das melhores coleções escolares de todos os tempos (tinha artigos de Charles Darwin e Karl Marx), disseminou-se pelos Estados Unidos de forma ilegal. Devido ao dano de muitas unidades pirateadas, em 1901 o controle da marca passou aos norte-americanos, que abrigavam um mercado promissor. A 11ª edição, de 1911, foi a primeira a ser replicada por uma gráfica de alta produção. A enciclopédia, impressa tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, foi dedicada ao presidente norte-americano e ao Rei da coroa britânica.

Foi durante a 1ª Guerra Mundial, com a já esperada queda de vendas, que a Enciclopédia Britânica começou sua decadência. A edição de 1920 foi feita em folhas de papel mais baratas, para tentar alavancar as vendas. Quando a marca começava a mostrar sinais de estabilização, veio a Grande Depressão de 1929. Foi para contornar essa crise que a Enciclopédia Britânica bolou a estratégia de vendas porta a porta, que gerou a expressão popular “vendedor de enciclopédia”, que designa alguém chato, insistente.

Na década de 50, Dorita Barret de Sá Putch, norte-americana filha de um alto executivo da editora, veio morar no Brasil e conseguiu a exclusividade da Enciclopédia Britânica para a América Latina. Em 1957, ela lançou a Enciclopédia Barsa, na língua espanhola. A versão em português veio em 1963. O nome era uma combinação do seu primeiro sobrenome com o do marido já falecido. Dorita morreu em 1973, quando preparava a Enciclopédia Mirador, também uma combinação de uma sílaba de seu nome com o do segundo marido, Waldemiro Putch. O lançamento da Enciclopédia Barsa foi o pontapé para que a Britânica lançasse edições japonesa, chinesa, francesa, italiana e coreana.

Os anos de 1970 e 1980, que precederam a era da internet, marcam um pico no consumo de enciclopédias. Só em 1989, as vendas atingiram 120 mil unidades ao ano nos Estados Unidos, marca que nunca mais viria a ser alcançada.

Com a chegada da década de 1990, o mercado de enciclopédias voltou a se abalar. Em um ano, as vendas caíram para 51 mil unidades ao ano. O conteúdo online da Enciclopédia Britânica começou a ser disponibilizado em 1993, apenas para assinantes. A versão em CD-ROM veio só em maio de 1994, custando o surreal preço de 1.000 dólares. Com o fracasso de vendas, em 1999, parte do site passou a ser oferecida gratuitamente, como uma forma de atrair usuários fiéis que se interessassem em comprar o direito de acesso completo.

Desde que a internet começou a fazer parte do cotidiano do consumidor da Enciclopédia Britânica, elas empacam nas prateleiras. O preço de 1.400 dólares (aproximadamente 2.500 reais) pelo conjunto de 32 volumes, aliado à facilidade de pesquisa na web, fez com que o mercado ficasse restrito a colecionadores. A última edição, de 2010, vendeu apenas 8.000 cópias – número 15 vezes menor que os 120 mil vendidos em 1990, pouco antes do estouro da web. É menor até que as vendas da 3ª edição da enciclopédia, de mais de dois séculos antes – a de 1797 vendeu cerca de 10 mil cópias. Não é de se espantar que 99% da receita da marca vêm de outros investimentos.

Kodak e Polaroid já provaram que ser icônico não é suficiente para se sustentar neste século – a primeira anunciou o fim da produção de máquinas fotográficas no começo deste ano, e a segunda faliu em 2008, logo no início da expansão das câmeras digitais. Hoje, temos 10 vezes mais informações armazenáveis do que tínhamos no século XVIII. A edição de 2010 da Enciclopédia Britânica contava com 32 volumes, 30 mil páginas e cerca de 44 milhões de palavras. Na internet, cabe muito mais.

O curioso é que a tendência de prezar pela praticidade em oposição ao tradicionalismo do papel ainda não chegou ao Brasil. A Enciclopédia Barsa está sólida em seu mercado, preservando a venda de 70 mil coleções ao ano – marca quase 9 vezes maior que a de sua irmã Britânica. Ficou curioso? O Blog do Curiocidade publicou uma matéria contando a situação da Enciclopédia Barsa no Brasil.

 

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