Por que o Uruguai tem quatro estrelas em sua camisa se é apenas bicampeão do mundo? Para o jornalista franco-uruguaio Pierre Arrighi o estalo veio em 2009, quando Uruguai e França jogaram uma partida comemorativa chamada de “O Jogo das Cinco Estrelas”, alusão ao título mundial conquistado pelos franceses em 1998, e às duas medalhas de ouro olímpicas (1924 e 1928) e às duas Copas do Mundo (1930 e 1950) dos uruguaios. A FIFA, no entanto, só reconhece os dois últimos títulos. Lançado no sábado passado, em Montevidéu, ome livro “1924 – Primeira Copa do Mundo de Futebol da FIFA”, de Arrighi, quer corrigir o que ele chama de erro histórico. “O mundo sabe que o Uruguai é o primeiro campeão mundial. Mas não foi em 1930, e sim em 1924”.
No torneio de futebol das Olimpíadas de 1924, cinco continentes estiveram representados por 22 seleções, números que seriam batidos somente em 1954, na Copa do Mundo disputada na Suíça e vencida pela Alemanha. A pluralidade continental é um dos fatores que embasam uma das cinco teses que Pierre Arrighi usa para comprovar que 1924 foi realmente uma Copa do Mundo. As outras são: o torneio ser dirigido por poderes desportivos do futebol que exercem livremente suas prerrogativas; esses poderes outorgam uma classificação na qual se especifique o caráter mundial da competição; o certamente ser amplamente divulgado pela imprensa mundial; o campeonato ser aberto a todas as categorias de futebolistas sem exclusões. Em 1924, apesar de ser um torneio olímpico, as seleções da França, Hungria, Suíça, Itália e Espanha usaram somente profissionais. Já o campeão Uruguai, que viria a profissionalizar seu futebol em 1932, contou apenas com amadores, o que, segundo o autor, suscitou maior “raiva” ao pequeno país. “A situação piorou depois que o Uruguai eliminou a anfitriã Holanda nas Olimpíadas de 1928”, afirma Pierre.
Para o povo uruguaio, o sentimento é que o país é tetracampeão do mundo. Inclusive quando veste a camisa da seleção nacional. “O regulamento da FIFA diz que somente podem usar estrelas os países que já tiverem sido campeões do mundo”, diz Pierre. “Por email, eles me confirmaram autorização das quatro estrelas para a AUF [Associação Uruguaia de Futebol]”. O autor afirma que a FIFA e a federação francesa tentaram ajudá-lo na pesquisa até o momento em que descobriram qual era a real motivação da pesquisa. “A partir daí, fui proibido de frequentar a biblioteca da Federação Francesa até 2016″, conta. “Mas precisava provar que meu país é tetracampeão do mundo.”