“Suspeito de participar da máfia de ingressos da Copa, Fofana é solto no Rio”. A última notícia sobre o grupo de cambistas que agiu livremente na Copa do Mundo de 2014 foi divulgada há exatos dois meses, em 15 de agosto. O cambista franco-argelino Lamine Fofana amargou 45 dias preso no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, depois de ser flagrado revendendo entradas da Copa do Mundo por até 35 mil reais cada – de acordo com as investigações iniciais, a máfia teria lucrado em torno de 200 milhões de reais durante o torneio. O habeas corpus concedido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, ao principal articulador do grupo marcou a última novidade da “Operação Jules Rimet”. O ponto de partida das investigações foi o livro Um Jogo Cada Vez Mais Sujo, do jornalista britânico Andrew Jennings.
O desbaratamento da quadrilha foi saudada por jornalistas do mundo inteiro. Mas, apagados os holofotes, o caso caminha a passos largos para o esquecimento. Para Marcos Kac, promotor do caso, está havendo uma “chicana jurídica”, termo usado por juristas para expressar um atraso de má-fé em processos. “O juiz necessita impor um limite, os acusados estão usando de vários subterfúgios para postergar o julgamento”, afirma Kac.
Cerca de 22 mil horas de escutas telefônicas ouvidas por membros da Polícia Civil do Rio de Janeiro revelaram a amizade de Fofana com celebridades do mundo futebolístico, como o técnico Dunga e a filha do ex-auxiliar Carlos Alberto Parreira. De acordo o procurador Marcos Kac, não há mais revelações a serem feitas. Todas as ligações foram ouvidas e o prazo legal para grampear os telefones chegou ao fim. “Estamos concluindo a parte da inteligência e da análise de dados”, explica Kac. “Juntamos todos os laudos técnicos dos computadores e das escutas, agora os policiais que participaram do caso deverão depor”. Fábio Barucke, delegado que conduziu a investigação, muito solícito na época das prisões, não atendeu mais as ligações da reportagem do Blog do Curioso. Em uma de suas últimas declarações sobre o caso, ele disse que desconfiava da colaboração da Corte Arbitral do Esporte, instância máxima desportiva europeia, localizado na Suíça. “Até a Corte, que tem o dever de ser íntegra, está envolvida no esquema”, declarou Barucke. “Alguém de lá enviava ingressos ao cambista Fofana”. A investigação não fisgou nenhum peixe graúdo, mas não ficou só no bagrinho Fofana. Ray Whelan, executivo da Match Services, empresa responsável pela comercialização das entradas, também trocou uma luxuosa suíte no Copacabana Palace por uma cela em Bangu. Também está solto, mas o procurador Kac não sabe informar o seu endereço no momento. Fofana está instalado num flat na Barra da Tijuca. Os dois estão com seus passaportes apreendidos e não podem deixar o país.
Uma reportagem de O Estado de S. Paulo, em 23 de julho, aventou a possibilidade de Lamine Fofana fazer revelações à Justiça brasileira – uma espécie de “delação premiada”. Por enquanto, tudo parece ter sido apenas um “aviso” para os chefões da quadrilha. O articulador do caso não será ouvido até o processo ser finalizado, como manda a lei. Kac diz que a defesa de Fofana está pressionando a Justiça para sair do país. “Ele diz ter compromissos em outros lugares e que não pode ficar mais aqui, o que atrasa o processo”, afirma Kac. “Pelo que sei, ele não se encontrou mais com o Whelan.” O promotor torce pela ajuda de entidades internacionais na manutenção de Fofana no Brasil, já que se ausentaram quando os investigadores brasileiros precisaram. Marcos Kac é um dos poucos que tem se esforçado para não deixar o caso cair no esquecimento. “Sofremos uma série de restrições”, esbraveja. “As organizações internacionais não cooperaram para chegarmos aos líderes da máfia, não forneceram informações”. O promotor acredita – e aí ele não está só – que o esquema dos ingressos era orquestrado por alguém de dentro da FIFA, evidência constatada pela total falta de colaboração da entidade. “A FIFA enrolou quando pedimos a listagem de telefones”, conta. “Quando viram que partiríamos para cima, decidiram fornecer os números. Liguei para o chefe de gabinete de segurança do Rio de Janeiro e disse que invadiríamos os quartéis-generais da FIFA, os hotéis cariocas Sofitel e Copacabana Palace, para pegarmos a documentação necessária”. Marcos Kac não sabe quando novas informações do caso serão divulgadas, mas guarda o rancor pela soltura dos dois cambistas e por não ter finalmente descoberto o chefão da Máfia dos Ingressos (bem, o livro de Andrew Jennings pode ajudá-lo nesse ponto). “Poderíamos ter defenestrado a podridão que existe lá desde João Havelange [presidente da FIFA de 1974 até 1998]”, afirma.”É uma máquina de fazer dinheiro que não temos nem noção”.
(com reportagem de Lucas Strabko)