Eram 7.021 pessoas presentes no Minneapolis Auditorium, ginásio do Minneapolis Lakers, em 22 de novembro de 1950. O time era o atual bicampeão da NBA, a liga de basquete norte-americana, e enfrentava o Fort Wayne Pistons, que havia sido o vice-campeão da Conferência Oeste na temporada anterior. Os Pistons abriram um ponto de vantagem e o treinador Murray Mendenhall não teve dúvidas: mandou o seu defensor Ralph Johnson enrolar e segurar a bola pelo máximo de tempo possível.
As regras do basquete eram diferentes e não havia limite no tempo de posse de bola. Então, os Pistons ficaram praticamente o jogo inteiro tocando a bola de um lado para o outro da quadra. A torcida ficou impaciente e até mesmo os árbitros e os jogadores dos Lakers imploraram para que os visitantes tentassem anotar mais pontos. No fim das contas, a estratégia não deu certo. Os Lakers conseguiram fazer 3 x 1 no último quarto e viraram o jogo para 19 x 18, vencendo aquela que foi a partida com menor pontuação na história da NBA. Apesar da derrota, a tática foi considerada revolucionária para uns e terrível para outros: “Jogar dessa forma vai matar a beleza do basquete”, profetizou Johny Kundla, então técnico da equipe de Minneapolis.
Danny Biasone, dono do Syracuse Nationals (vice-campeão da temporada 1953-1954), Emil Baroni, responsável do Nationals pela análise das estatísticas, e Leo Ferris, o treinador, se reuniram em um boliche que também era de propriedade de Biasone para discutir o assunto. De posse de uma avalanche de dados sobre jogos, eles chegaram a um número mágico. Ao analisar as estatísticas, o trio concluiu que os jogos mais interessantes tinham em média 60 arremessos de cada time – ou seja, 120 arremessos ao longo de 48 minutos de partida. Aí ficou fácil: foi só fazer em um guardanapo a conta de quanto dava 120 dividido por 48 para descobrir que essas partidas tinham uma média de 2,5 arremessos por minuto. Ou um arremesso a cada 24 segundos.
A conclusão óbvia foi a de que, limitando o tempo de posse de bola a 24 segundos por ataque, os times fatalmente arremessariam uma bola a cada 24 segundos e todos os jogos teriam um índice próximo ao que o trio considerava ideal. O número não foi tão bem aceito de cara, pois uma corrente acreditava que os jogadores, sem ter consciência sobre o tempo de que ainda dispunham para concluir as jogadas, poderiam arremessar desesperadamente todas as bolas logo nos primeiros segundos. Foi isso o que aconteceu no primeiro teste da nova regra, em um amistoso promovido por Biasone reunindo jogadores universitários e jogadores do Syracuse Nationals.
A solução foi desenvolver um relógio para ser colocado no topo da cesta, o que ajudou os jogadores a se adaptarem à novidade e fez com que a regra fosse adotada. Mas outras falhas apareceram no caminho: em um jogo do próprio Syracuse Nationals, quando o tempo expirou, uma bola foi arremessada, acertou a tabela e voltou nas mãos de outro jogador do próprio time. A arbitragem não sabia dizer se o lance contava como um arremesso ou se a posse de bola da jogada anterior ainda não havia se encerrado, o que inviabilizaria a continuidade do lance. Uma reunião foi convocada para decidir a questão e concluiu-se que permitir que a bola fosse atirada deliberadamente na tabela para configurar uma nova jogada faria com que alguns times passassem toda a partida fazendo isso.
Consolidada, a regra logo foi aclamada pelo mundo do basquete. Quando foi adotada, na temporada 1954-1955, o recorde histórico de pontuação média por jogo havia sido registrado na temporada 1951-1952 e era de 83,7. Logo no primeiro ano com o shot clock a média foi de 93,1 e subiu progressivamente até chegar aos 118,8 na temporada 1961-1962 – até hoje este é o recorde histórico da NBA. A Federação Internacional de Basquete adotou a regra dois anos depois, em 1956, mas permitindo 30 segundos de posse de bola – apenas em 2000 a regra foi adaptada e se igualou à NBA.
(Com reportagem de Leonardo Dahi)
