Você já ouviu falar em “voto marmita”? Hoje, o voto é secreto. Ninguém é obrigado a contar em quem votou. Isso é uma grande ferramenta contra o assédio eleitoral, que é crime, mas continua rolando livre, leve e solto. É o caso de patrões que pressionam os funcionários a votar em determinado candidato, ameaçando cortes de benefícios ou até demissão, caso não obedeçam.
Mas como era antes do voto secreto? Durante a Primeira República, entre 1889 e 1930, existia no Brasil o chamado “voto marmita”. Naquela época, as pessoas votavam usando cédulas de papel com os nomes dos candidatos. Elas deveriam trazer seus votos prontos de casa. Os grandes fazendeiros, conhecidos como “coronéis”, preparavam antecipadamente pilhas dessas cédulas e as distribuíam aos trabalhadores e a outras pessoas que estavam sob sua influência. Essas cédulas eram colocadas dentro de envelopes de votação, apelidados de “marmita”.
Dentro das “marmitas”, não havia papéis para o eleitor escolher livremente: ele recebia a ordem de votar apenas nos candidatos indicados pelo coronel. Era uma das formas do chamado voto de cabresto, expressão que comparava o controle dos eleitores ao de animais conduzidos por uma corda. Esses eleitores eram reunidos em locais, que ganharam o nome de “currais eleitorais”. O nome “marmita” veio daí, pois os eleitores recebiam comida, bebida e transporte antes de serem conduzidos às urnas.
Em 1932, o novo Código Eleitoral estabeleceu regras para proteger o segredo do voto. O eleitor passou a colocar sua cédula dentro de um envelope oficial, em uma cabine reservada. Mas os partidos ainda podiam distribuir cédulas prontas. A fraude continuou, inclusive com a troca de envelopes.
Até que, em 1955, surgiu a cédula oficial padronizada, distribuída pela Justiça Eleitoral, primeiro nas eleições presidenciais. Em 1962, ela foi estendida às demais eleições.
Com as urnas eletrônicas, apareceu outra preocupação: alguém poderia ser coagido a fotografar a tela para provar em quem votou. Por isso, celulares e câmeras são proibidos nas cabines eleitorais desde 2009. Em 2022, a regra ficou mais rigorosa, exigindo que os aparelhos fossem deixados com os mesários antes da votação.
Sobre o voto marmita, existe até uma história, contada como anedota, sobre um eleitor que perguntou ao coronel se podia abrir o envelope para ao menos saber em quem estava votando. A resposta teria sido: “Não, senhor! O voto é secreto!”