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Como é o trabalho de um jurado do Carnaval – que já foi até “jurado de morte”!

24 de fevereiro de 2017

Começam hoje à noite os desfiles das escolas de samba de São Paulo. Serão 14 escolas no Grupo Especial e oito no Grupo de Acesso, ambos organizados pela Liga Independente das Escolas de Samba. Além dos milhares de artistas e desfilantes, o espetáculo é protagonizado por 36 pessoas que ajudam a decidir o resultado do trabalho de um ano inteiro. São os jurados que passarão três madrugadas reclusos em oito torres concedendo notas de 8,0 a 10,0 (fracionadas em décimos) para cada agremiação. Ao todo, nove quesitos são avaliados por quatro jurados cada um. Eles devem penalizar qualquer erro com o máximo de isenção. Independentemente do quão justa seja a nota, na terça-feira gorda, na hora da apuração, os jurados recebem todo o tipo de xingamento por parte de dirigentes e torcedores.
Mas como é, afinal, o trabalho de um julgador? Quem são as pessoas que recebem tamanha responsabilidade? Hoje, no Manhã Bandeirantes, programa que apresento na Rádio Bandeirantes, eu e Thays Freitas conversamos com o músico Carlos Kbelo, que julgou os desfiles dos Grupos Especial e de Acesso entre 2010 e 2014. Ele começou no quesito samba-enredo, mas já foi também julgador de harmonia: “Não sei quanto é a remuneração hoje, acho que gira em torno de 4 mil ou 5 mil reais. Ganho mais tocando”, diz o músico.

Visão do jurado a partir da cabine de julgamento

Nos seus anos de trabalho como jurado, você já foi alguma vez jurado… de morte?
Já… e logo no primeiro ano (risos). A gente ficava confinado a partir da quarta-feira anterior ao desfile e só era liberado na segunda de manhã, após os desfiles do Grupo de Acesso. Então, na terça-feira, depois da apuração, eu sempre arrumava um trabalho. E nesse primeiro ano, em 2010, eu não dei 10 para a Gaviões da Fiel (foi o único 9,75 que a escola levou no quesito samba-enredo; por ser a menor nota da escola no quesito, ela foi descartada). Aí me ligaram na hora: “você tá louco? Não deu 10 pra Gaviões? Agora estão aqui dizendo que vão matar o jurado!”. Já virei jurado de morte ali (risos). Não dá para dar 10 para todo mundo, mas tem gente que consegue.
Como é o confinamento dos jurados?
Antigamente você ficava trancado no hotel a partir da noite de quarta-feira e, se precisasse sair para comprar algo na farmácia, por exemplo, tinha que ir com um segurança. Na quinta, você preparava tudo, e, na sexta, já tinha o desfile. Na avenida, você não pode falar com ninguém.
E não dá tédio?
Começou a dar quando eles mudaram e passaram a confinar a gente desde a segunda-feira anterior. Aí, tudo o que fazíamos na quinta, passamos a fazer em quatro dias. Então tinha que tirar foto para a transmissão da Globo na segunda, conversar com os presidentes das escolas na terça (é aí que eles botam a maior pressão)… Na quinta, íamos buscar a caneta… Quinta à tarde, a camiseta… Achava isso uma bobagem. Dava tédio, sim.

 

Mapa Cultural Campinas/SP - Carlos Kbelo - Mapas Culturais

O músico Carlos Kbelo: “jurado de morte” por causa de um 9,75 para Gaviões da Fiel

No geral, todas as notas são altas. Vocês são proibidos de dar nota baixa?
O julgamento é técnico, e não comparativo. Existe uma nota mínima (de 2012 para cá, quando as notas passaram a ser decimais, instituiu-se o 8,0 como mínimo), mas você parte do 10 e vai tirando ponto a partir dos erros. Por isso as notas ficam próximas do 10.
Você dá as notas logo que o desfile termina ou fecha tudo de uma vez quando a última escola passa?
Cada um tem um método. Eu preferia sempre fechar a nota quando a escola terminava o desfile. Tem quem prefira fazer um rascunho da nota e da justificativa e só passar a limpo depois. Vai de cada um.
É verdade que o jurado só pode avaliar o que passa ali em frente à própria cabine?
Sim. Para se ter uma ideia, enquanto eu fui jurado de samba-enredo, nunca ouvi os CDs oficiais com os sambas-enredos. Sempre dava de presente pra alguém. Nós temos que nos ater ao samba na avenida e o samba muda na hora do desfile. Se quebra um carro na frente de um jurado de alegoria, ele desconta pontos. Mas, se conseguem consertar antes da próxima cabine, o jurado dessa outra cabine precisa julgar o que está vendo naquele momento.
Como é o espaço dessas cabines?
São torres com dois andares. O banheiro fica no térreo. No primeiro andar, geralmente ficam os jurados do módulo musical; no segundo, os dos módulos visual e dança. Trancam a porta e ninguém entra. A cada duas escolas, abrem a porta e nos servem café, frutas, sanduíches.
Por que você não é mais jurado?
Eu fui vetado. Uma escola tinha perdido pontos com os quatro jurados e vetou os quatro. Ser jurado gera muita pressão. Foi uma experiência bem legal. Apesar das discordâncias, que sempre acontecerão quando se julga a arte, eu gostei bastante.

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8 Comentários

8 Comentários

  1. ZEPHYR11

    Mas os nomes ainda são divulgados? Idade da pedra.
    Jurado 1, jurado 2, e assim por diante.
    E deveriam atualizar o esquema de notas. Incrível um ítem receber nota 9,83, depois 7,65. Acha?!
    Deveria ser 9,5, 8,5, 8,0, e por aí vai.
    Estamos no século 21 pessoal.

    Responder
  2. ZEPHYR11

    Mas os nomes ainda são divulgados? Idade da pedra.
    Jurado 1, jurado 2, e assim por diante.
    E deveriam atualizar o esquema de notas. Incrível um ítem receber nota 9,83, depois 7,65. Acha?!
    Deveria ser 9,5, 8,5, 8,0, e por aí vai.
    Estamos no século 21 pessoal.

    Responder
  3. George

    Antes eu acreditava que ganhava a melhor, mais bem preparada, bonita etc, mas depois que conheci um mestre de nome x descobri a verdade,ganha aquela escola que mais ameaça ou que paga mais para ser o campeão. Viva o Brasil, e sua corja de bandidos! É o que mais temos por aqui devido aos nossos parlamentares.

    Responder
  4. George

    Antes eu acreditava que ganhava a melhor, mais bem preparada, bonita etc, mas depois que conheci um mestre de nome x descobri a verdade,ganha aquela escola que mais ameaça ou que paga mais para ser o campeão. Viva o Brasil, e sua corja de bandidos! É o que mais temos por aqui devido aos nossos parlamentares.

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  5. Mateus

    #CARNAVALDOSDESEMPREGADOS

    Responder
  6. Mateus

    #CARNAVALDOSDESEMPREGADOS

    Responder
  7. Alexandre Garcia

    Deve ser bem complicado ser jurado.
    Não gostaria de estar na pele deles, porque se errarem, podem atrair a fúria dos integrantes da escola.
    Eles correm o risco de até apanhar no meio da rua. Por que não?

    Responder
  8. Alexandre Garcia

    Deve ser bem complicado ser jurado.
    Não gostaria de estar na pele deles, porque se errarem, podem atrair a fúria dos integrantes da escola.
    Eles correm o risco de até apanhar no meio da rua. Por que não?

    Responder

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