A Páscoa na Região Sudeste do Brasil

30 de março de 2020

A Páscoa em São Paulo

A tradição da Malhação de Judas foi trazida pelos portugueses. É realizada no Sábado de Aleluia, simbolizando a morte de Judas Iscariotes, que, segundo o Novo Testamento, traiu Jesus Cristo por 30 moedas de prata. A malhação consiste em bater num boneco do tamanho de um homem, forrado de serragem pelas ruas e depois atear fogo a ele. Em São Paulo, o ponto de maior concentração é a Rua Lavapés, no bairro do Cambuci. A Malhação começou a ser realizada ali em 1937. De uns tempos para cá, além de Judas, bonecos que representam políticos também são socados, pisoteados e queimados.

 

Foto: Jéssica Ferrari/Itu.com.br


A Malhação do Judas na cidade paulista de Itu – famosa por seus objetos de tamanhos exagerados – é muito curiosa. Há um encontro entre um boneco de Judas e outro do Diabo num poste. Quando eles se encaixam, há uma explosão e os dois vão pelos ares juntos. Trinta moedas saem de dentro de Judas. O “Estouro do Judas” não acontece no Sábado de Aleluia, mas no próprio domingo. Há referências na imprensa da cidade que a tradição começou em 1877, mas ela pode ser ainda mais antiga.

Para festejar a Páscoa, a cidade de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, em São Paulo, promove o Festival da Paçoca e do Pilão. A paçoca é preparada com amendoim, farinha de mandioca, açúcar e sal. Doceiros conservam o preparo à moda antiga: moída e socada no pilão. Durante a Semana Santa, são montadas barracas nas praças da cidade para vender o docinho típico, que vem ganhando versões gourmets também nos últimos tempos. 


Uma das cidades mais antigas do país (fundada em 1580),
Santana do Parnaíba (SP) promove anualmente o concorridíssimo espetáculo “Drama da Paixão”. O espaço cenográfico de 15 mil metros quadrados fica na Barragem Edgard de Souza, às margens do Rio Tietê, no km 40 da Estrada dos Romeiros. A encenação de 2 horas conta com 120 atores e 800 figurantes. 

 

 

A Páscoa no Rio de Janeiro

A comunidade grega, que se concentra principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, costuma pintar ovos cozidos de vermelho. Depois de decorados, duas pessoas fazem um desafio. Cada uma pega um ovo, faz um pedido, e batem um contra o outro. Aquela que conservar o ovo intacto tem o desejo realizado. Na Páscoa Grega, a Magiritsa, uma sopa de miúdos de carneiro, é servida no Sábado de Aleluia, depois dos 48 dias de Quaresma e de jejum. Há também um pão em formato de trança chamado Tsoureki. Ele é preparado na manhã da Quinta-Feira Santa para ser servido no domingo. Segundo a crença popular, as tranças e os nós serviam para afugentar os maus espíritos. Quando está assado, o TSoureki recebe ainda um ovo pintado de vermelho no topo, simbolizando o sangue de Jesus Cristo. A Páscoa na colônia grega nem sempre coincide com a data comemorada dos católicos, já que a comunidade segue o calendário bizantino para as comemorações.

Durante a Semana Santa, imagens e peças sacras – algumas com 300 anos! – podem ser vistas nas procissões de Paraty (RJ). É uma oportunidade realmente rara. As peças ficam guardadas o ano todo no cofre do Museu de Arte Sacra da cidade, que fica na Igreja de Santa Rita.

 

A Páscoa no Espírito Santo

A Torta Capixaba tem também outros dois nomes populares: Torta de Mariscos ou Torta da Semana Santa. Ela é uma tradição da Páscoa do Espírito Santo há pelo menos 150 anos. No início, a torta era servida (fria e em fatias) às 8 horas da noite da Sexta-Feira Santa. Hoje em dia, o capixaba não tem mais a mesma rigidez de dia e horário, mas não deixa de saboreá-la em alguma das refeições do feriado cristão. Ela leva mariscos, ovos e palmito.

 

A Páscoa em Minas Gerais


A história dos tapetes de flores em
Ouro Preto (MG) começou em 1733, ano da reinauguração da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar. A tradição voltou em 1963, quando Nossa Senhora do Pilar foi escolhida a Santa Padroeira da cidade. Os tapetes cobrem os 3 quilômetros da procissão entre as igreja de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Rosário, no Centro. Os desenhos são feitos com serragem colorida, flores, areia e palha. Podem ser imagens religiosas ou mesmo formas geométricas. A festividade ficou conhecida como Triunfo Eucarístico. Inúmeras outras cidades, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, também produzem esse tipo de tapete.

 

 


Diamantina
(MG) mantêm todos os ritos tradicionais das celebrações da Semana Santa, que se inicia no Domingo de Ramos, prossegue com a Procissão do Encontro, a cerimônia do Lava-Pés, a Sexta-Feira da Paixão (crucificação e morte de Jesus Cristo), o Descendimento da Cruz e termina com a Ressurreição, no Domingo de Páscoa. Uma das tradições mais antigas preservada na cidade é a “Guarda Romana”, onde cerca de 50 homens caracterizados participam da Via Sacra.

 


As comemorações da Semana Santa em
Mariana (MG) atraem grande número de turistas. Na Procissão das Almas, uma das mais tradicionais, os fiéis se cobrem de lençóis brancos e, com velas nas mãos, saem pelas ruas do centro histórico. 

 

 

 

Em Congonhas (MG), as procissões, ao som das matracas e o toque fúnebre das bandas de música, relembram o cortejo de Jesus aprisionado. Cerca de 200 atores representam as figuras bíblicas do Velho e Novo Testamento. Na quinta-feira, na Praça da Igreja Matriz, há encenação da Santa Ceia. Na sexta à noite, a encenação da Crucificação de Cristo acontece no Adro dos Profetas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1985. 

 

A Páscoa Iluminada de Araxá (MG) é o maior evento temático pascal do país. As atrações duram cerca de um mês e seguem o modelo que transformou a cidade de Gramado (RS) na “Cidade do Natal”. Ele começou a ser realizado em 2014 e acontece no entorno do Grande Hotel Araxá. Em 2020, por causa da pandemia do coronavírus, a Páscoa Iluminada de Araxá foi transferida para o mês de agosto.

Há dois séculos, o Cortejo de Encomendação de Almas é realizado durante a madrugada da sexta-feira santa de São João Del Rei (MG), percorrendo sete igrejas e cemitérios da cidade. Segundo a tradição, quem conduz a procissão deve ser um homem com mais idade e respeitado pela comunidade. Uma das lendas do cortejo é que as pessoas não devem olhar para trás nem deixar as portas de casa abertas, para não correr o risco de ver as almas saindo dos cemitérios. A cerimônia de “encomendação das almas” é um costume de origem europeia medieval muito comum em diversas zonas rurais do Brasil no séc. XIX. Os rezadores param em frente às residências para orar pelos mortos recentes. Os cantos são entoados em latim. São João Del Rei também é palco de dois dos mais esperados espetáculos na Semana Santa mineira: o Descendimento da Cruz, na escadaria da Igreja Nossa Senhora das Mercês, e a Procissão do Enterro, no centro histórico.

Um dos destaques da Semana Santa em Sabará (MG) é o Ofício das Trevas. Na Sexta- Feira da Paixão, os fiéis se reúnem para uma celebração na Igreja do Carmo, construída no século XVIII. A missa é cheia de simbolismos. Todas as imagens são cobertas com panos roxos.  Um candelabro com velas acesas é colocado no altar. A cada salmo rezado, uma vela é apagada. Ao alcançar o salmo 50, a última vela – ainda acesa – é escondida atrás do altar. As luzes da igreja são apagadas. Quando isso acontece, o povo reunido começa a bater mãos e pés, pedindo pela vela. Quando ela reaparece, todas as luzes são acesas. Isso representa o Deus morto, que volta porque todos o clamam.

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