Por que o nome da marca Consul não leva acento circunflexo? Já reparou nisso? Rudolf Stutzer, descendente de alemães, e Guilherme Holderegger, imigrante suíço, eram donos de uma pequena fábrica na cidade de Brusque, Santa Catarina. Fabricavam anzóis, talheres, grampos de cabelo, correntes de bicicleta. Montaram o negócio em 1945 com a ajuda financeira do imigrante alemão Carlos Renaux, bem sucedido empresário do ramo de tecelagem. Stutzer trabalhava como motorista de Renaux, que tinha acabado de receber o título de cônsul honorário do Brasil em Arnhem, na Holanda. Por causa disso, Renaux passou a ser chamado pelos amigos de “Cônsul”. Com acento. Em retribuição à ajuda de Renaux, Stutzer batizou o seu negócio com esse apelido.

Certo dia, Stutzer e Holderegger receberam uma geladeira a querosene para consertar. Naquela época, todas as geladeiras eram importadas e só gente muito rica tinha o eletrodoméstico em casa. Carlos Renaux foi o primeiro a ter uma geladeira em Brusque, por exemplo. Os dois desmontaram a geladeira e perceberam que poderiam fabricar o primeiro refrigerador brasileiro. Um dos primeiros compradores das geladeiras feitas em Brusque foi Wittich Freitag, dono da Loja Freitag, na vizinha Joinville, que lhe propôs sociedade. Como os dois não tinham capital para expandir o negócio, eles procuraram outros sócios, incluindo Egon Freitag, irmão de Wittich, e Oscar Bachmann, cunhado de Stutzer. Montaram uma fábrica de verdade num galpão de 680 metros quadrados em Joinville. Assim nasceu oficialmente a Indústria de Refrigeração Consul no dia 15 de julho de 1950.

No primeiro ano, a Consul fabricou 22 refrigeradores a querosene. Em 1953, esse número aumentou para 230.

Stutzer teve a ideia de colocar uma plaqueta com o nome “Cônsul” na porta do refrigerador. A logomarca foi feita com a própria grafia de Renaux. O nome era gravado numa chapa de aço inoxidável, que depois precisava ser recortada com uma serra tico-tico. A ideia era ótima, a não ser pela dificuldade em recortar o acento circunflexo. Diante desse problema, ficou decidido que a marca Consul não teria acento.

Freitag abraçou a política. Além de vereador e deputado estadual, foi prefeito de Joinville entre 1983 e 1988 e depois entre 1993 e 1998. Essa história é contada no livro “Eu, Wittich Freitag”, escrito pela professora e escritora Raquel S. Thiago, e lançado em 1999 pela Editora Movimento & Arte.