A Semana de Arte Moderna de 1922 de A a Z

19 de junho de 2020

Anita Malfatti

A paulistana Anita Malfatti viveu sete anos entre Berlim e Nova York. Voltou ao Brasil em 1917 para iniciar uma das maiores revoluções artísticas do país. Com 53 telas, a “Exposição de Pintura Moderna Anitta Malfatti” chocou parte da crítica e dos admiradores ao revelar as fortes influências expressionistas adquiridas durante os estudos na Alemanha e nos Estados Unidos.

A exposição plantou nas revistas especializadas a discussão sobre a necessidade de se aproveitar as diversas influências internacionais não para copiá-las, mas sim para criar um movimento artístico genuinamente brasileiro. Foi o maior debate cultural do país desde que Oswald de Andrade escreveu, em 1912, que “o Brasil estava culturalmente atrasado em 50 anos”. Esse debate cresceu até que o modernismo se afirmasse definitivamente na semana de arte moderna de 1922.

Banquete no Palácio Trianon

No dia 9 de janeiro de 1921, um banquete realizado no Palácio Trianon, na região central de São Paulo, assistiu a um dos discursos mais importantes do movimento modernista. Em meio às comemorações pelo lançamento do livro de poesias “As máscaras”, de Menotti Del Picchia, o dramaturgo Oswald de Andrade pediu a palavra e realizou um discurso em que anunciava uma “revolução modernista” no país.

Parte desse discurso foi publicada no dia seguinte pelo importante jornal “Correio Paulistano”. A partir daí, aumenta o espaço para o movimento modernista, também chamado de “futurismo”, nos jornais. Além de Oswald e do próprio Menotti, outros “futuristas” como Cândido de Mota Filho e Mário de Andrade divulgam a revolução modernista nos jornais e revistas.

Críticas

O debate sobre a revolução modernista também teve momentos marcantes do lado dos críticos ao movimento. Um dos principais foi o consagrado escritor Monteiro Lobato. Em “A Propósito da Exposição Malfatti”, artigo publicado no jornal “O Estado de S. Paulo” em 1917, Lobato fez críticas duríssimas ao trabalho de Malfatti. Chegou a dizer que “a única diferença das telas de Anitta para as telas pintadas em manicômios é que a arte dos loucos é sincera”.

O artigo ficou conhecido como “Paranóia ou Mistificação?” e, embora fizesse elogios ao trabalho da artista antes das influências modernistas, impactou no trabalho e na vida de Anitta Malfatti, que chegou a parar de pintar até encontrar Tarsila do Amaral. A forte reação dos modernistas às críticas de Monteiro Lobato é considerado outro dos marcos da revolução. 

Di Cavalcanti

O carioca Emiliano Di Cavalcanti tinha apenas 24 anos de idade, oito de carreira e cinco de cidade de São Paulo quando se firmou como um dos principais nomes da semana de arte moderna de 1922. Foi dele a ideia de promover o evento para reunir os maiores nomes do movimento modernista no país. Ele criou o catálogo das exposições e inseriu 12 trabalhos autorais na lista.

Grande estudioso da revolução cultural que se instalava no Brasil, o pintor mudou-se para a França pouco tempo depois da semana de arte moderna. Voltou anos mais tarde com traços novos, maior preferência para as cores mais fortes e uma até então incomum manifestação de preocupação com os problemas sociais do país em suas telas.

Elite

Acompanhar as exposições da Semana de Arte Moderna não era barato. Na verdade, só mesmo a elite pôde ter acesso ao Theatro Municipal nos dias do evento. O próprio evento só aconteceu por conta do patrocínio de parte da elite cafeeira da cidade que destinou recursos à organização da Semana. Um anúncio da época mostra que as entradas mais baratas, chamadas de “cadeiras e balcões” para o primeiro dia do evento custavam 20$300 réis. É impossível definir com precisão o quanto isso representa em valores de hoje, mas, na época, com esse valor seria possível comprar 101 edições do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Os ingressos mais caros, para os camarotes e frisas, saíam por 186$000 réis, ou, o valor de 930 jornais do dia. Para o último dia, marcado apenas por uma exibição musical de Heitor Villa-Lobos, os bilhetes saíam mais em conta: 5$300 réis ou o valor de 26 diários comprados na banca de jornais. Os ingressos eram vendidos no próprio Theatro Municipal e também no Automovel Club, no Vale do Anhangabaú.

Folga

A semana de arte moderna durou cinco dias, entre 13 e 17 de fevereiro de 1922, mas nem todos foram preenchidos com eventos oficiais. Depois da abertura na segunda-feira, dia 13, houve um dia sabático na terça. A programação voltou na quarta-feira, dia 15, e depois houve novo descanso na quinta, até o fim dos trabalhos no encerramento oficial no dia 17, uma sexta-feira.

Assim, apesar do nome “Semana de Arte Moderna”, o evento consistiu, na verdade, de três dias de exposições no saguão do Theatro Municipal, além dos discursos e apresentações musicais no auditório do teatro.

Guiomar Novaes

A pianista Guiomar Novaes seria a grande atração do dia 15 de fevereiro de 1922, quarta-feira, no Theatro Municipal. Música de carreira consagrada no Brasil, na França e nos Estados Unidos, Guiomar não era propriamente uma modernista, mas desfrutava de grande prestígio ante público e crítica naquela época.

Os problemas começaram quando, na abertura da Semana dois dias antes, o pianista Ernani Braga executou uma paródia francesa para a “Marcha Fúnebre”, de Chopin. Guiomar criticou publicamente a escolha de Braga, mas ainda assim fez a sua apresentação dois dias mais tarde. Executou um repertório moderno, incluindo uma composição carnavalesca de Heitor Villa-Lobos, mas cedeu aos incessantes pedidos da plateia e tocou no piano o sucesso “L’Arlequin”, do francês Colin Vallon. Foi a vez dos modernistas reclamarem. Foi a noite mais agitada de toda a Semana.

Heitor Villa-Lobos

Coube ao compositor carioca fazer sua apresentação na última noite do festival. Era o dia mais calmo da Semana e a plateia se portava de maneira respeitosa. Isso até Villa-Lobos, que embora já tivesse certo renome ainda não era consagrado como seria posteriormente, pisar no palco calçando sapato em um pé e chinelo no outro. O público interpretou aquele gesto como um desrespeito e vaiou impiedosamente o músico.

Quando as vaias cessaram, Villa-Lobos se exibiu de maneira magistral, arrancando aplausos efusivos e uma aclamação impressionante da crítica nos jornais paulistanos do dia seguinte. Tempos mais tarde, ainda alegou: se apresentou de chinelo por causa de um calo inflamado. Um dia depois da apresentação, viajou para a Europa e começou a trilhar uma trajetória de sucesso também fora do Brasil.

Independência

A Semana de Arte Moderna tinha uma representação simbólica naquele ano de 1922. É que exatamente 100 anos antes, em 1822, o Brasil tinha se tornado um país independente. Assim, os eventos artísticos em São Paulo foram inseridos no contexto das comemorações pelo centenário da Independência.

A coincidência estava ligada também ao desejo dos modernistas de transformar o Brasil em um país independente também no campo artístico. O ideal de criação de um estilo absolutamente brasileiro, ainda que com reconhecidas influências estrangeiras, foi enxergado também como uma espécie de “nova Independência” 100 anos depois.

José Pereira da Graça Aranha

Coube ao maranhense José Pereira da Graça Aranha abrir oficialmente a Semana de Arte Moderna. Aos 53 anos, o escritor tinha idade para ser pai da maioria dos modernistas e foi um dos únicos “pré-modernistas” a fazer parte do cardápio de atrações da Semana. Graça Aranha apresentou a conferência “A emoção estética da Arte Moderna”, o primeiro evento oficial do dia de abertura. Em seu discurso, Aranha falou contra o “preconceito da beleza” e disse que a arte modernista era bela porque desperta emoção e alegria gerada pela emoção é bela.

A escolha por Graça Aranha para inaugurar a Semana não foi por acaso: às vésperas do evento, em 29 de janeiro de 1922, o jornal “O Estado de S. Paulo” creditava à Graça Aranha a iniciativa por reunir os artistas modernistas em uma semana de exposições no Theatro Municipal. 

Klaxon

A Semana de Arte Moderna fez crescer o interesse do público pelas ideias modernistas. Tanto foi assim que pouco tempo depois do evento não só os jornais e revistas davam espaço aos modernistas, como também revistas especializadas na arte moderna surgiram em São Paulo. A principal delas foi a Klaxon, que circulou mensalmente entre 1922 e 1923.

O nome “Klaxon” é uma referência ao termo usado na época para designar a buzina externa dos automóveis. A Klaxon teve vida relativamente curta, mas anos mais tarde inspirou o surgimento da “Revista da Antropofagia”, que circulou entre 1928 e 1929 para divulgar os ideais antropófagos, movimento “filho” do modernismo.

Longe de casa

Tarsila do Amaral foi uma das principais líderes do movimento modernista no Brasil. A pintora fazia parte inclusive do “Grupo dos Cinco”, espécie de “linha de frente” do modernismo no Brasil. Ainda assim, Tarsila não participou da Semana de Arte Moderna. Isso porque, na época, ela vivia em Paris.

Tarsila voltaria ao Brasil ainda no ano de 1922 para retomar o posto de uma das principais expoentes dos ideais da Semana no país e marcar definitivamente a sua obra na história do modernismo do país. Tarsila casou-se em 1926 com Oswald de Andrade, outro dos ícones do movimento. Outros artistas importantes do modernismo que estavam fora do país na época da Semana eram os “heroicos” Lasar Segall e Victor Brecheret, que fizeram parte de um grupo de modernistas antecessor ao que articulou os eventos de fevereiro de 1922.

Mário de Andrade

O escritor paulistano foi um dos principais idealizadores da Semana de Arte Moderna. Ainda sem o prestígio que alcançaria anos mais tarde por causa principalmente do clássico “Macunaíma” (1928), ele vaiado e achincalhado ao declamar suas poesias durante a Semana. Andrade foi um dos principais estudiosos do movimento modernista. Prova disso foi que naquele mesmo ano publicaria “Paulicéia Desvairada”, livro em que relatava o contato dos modernistas com as vanguardas artísticas europeias e a busca por encaixar essas ideias revolucionárias na “linguagem brasileira”.

Essa expressão – “Paulicéia Desvairada” – até hoje é fortemente associada à Semana de Arte Moderna. “Paulicéia” é uma referência a São Paulo; “desvairismo” é sinônimo de incongruência, excentricidade. Vinte anos mais tarde, em 1942, Mário publicou um texto no jornal “O Estado de S. Paulo” em que relembrava com saudade dos tempos da Semana de Arte Moderna, manifestou que tinha absoluta convicção nas ideias do movimento, mas confessou que “sozinho, não teria forças para arrostar aquela tempestade de achincalhes”, creditando a sua participação na Semana ao encorajamento promovido pelos amigos.

Nacionalismo

Uma das características mais marcantes do movimento modernista foi o nacionalismo, a valorização da identidade nacional. Não só pelo propósito de criar um estilo artístico absolutamente brasileiro, como também pela valorização de figuras tipicamente nacionais como os índios, os negros, a população rural e os trabalhadores mais pobres das grandes cidades.

Essa necessidade de transformar figuras genuinamente brasileiras em protagonistas em telas, livros, peças e poemas se expandiu para depois da Semana de Arte Moderna. Logo depois, em 1924, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral criaram o “Movimento Pau Brasil”. Anos mais tarde, em 1926, surgiu o movimento literário dos “Verde-Amarelistas” e o “Grupo da Anta”, todos fortemente impactados pelas ideias nacionalistas. Ainda na década de 1920, em 1928, Mário de Andrade publicou “Macunaíma”, considerado um dos melhores retratos da brasilidade de toda a história da literatura nacional.

Oswald de Andrade

Oswald de Andrade teve um papel muito importante não só como articulador da Semana. Foi ele quem descobriu, em uma viagem à Paris, que havia na Europa um crescente espaço para formar artísticas historicamente conhecidas como “menores” como as artes africanas e asiáticas. Assim, regressou ao Brasil pregando a desconstrução das formas artísticas rígidas e tradicionais importadas da Europa.Foi outro dos poetas extremamente vaiados ao tentar declamar o seu poema “Os condenados” durante a Semana.

Paulo Menotti Del Picchia

O público comportou-se de maneira rebelde em relação aos modernistas durante praticamente toda a Semana. Mas talvez ninguém tenha sofrido tanto com a rejeição do público quanto o poeta paulistano Paulo Menotti Del Picchia. No agitado 15 de fevereiro de 1922, quarta-feira, ele fez uma palestra sobre a arte estética e apresentou ao público aqueles que considerava os principais artistas modernos do país. Os aplausos de parte da plateia foram abafados pelas manifestações de outra parte, que não só vaiaram como emitiram sons diversos como latidos, miados e grunhidos que atrapalharam a apresentação.

Del Picchia utilizou o seu espaço no jornal “O Correio Paulistano” para, ainda antes da Semana, divulgar as ideias modernistas sob o pseudônimo de Hélios. Depois, abraçou fortemente o nacionalismo e foi um dos principais expoentes do “Movimento Literário dos Verde-Amarelistas”.

Quitutes

Engana-se quem pensa que os modernistas estavam preocupados apenas com telas, livros e peças teatrais. A gastronomia também teve espaço naquele 1922. As primeiras reuniões dos modernistas já eram acompanhadas por doces tipicamente brasileiros e bebidas também genuinamente nacionais. Quando os encontros aconteciam na hora do almoço, a culinária luso-brasileira era quem estava em alta: farinha de mandioca em abundância, muito azeite e, na sobremesa, doces feitos à base de ovos. De vez em quando, é claro, também entrava no cardápio uma brasileiríssima feijoada.

A mesa era tão farta que o próprio Mário de Andrade relatou que, certa vez, os intelectuais foram expulsos de uma reunião em um salão na Avenida Higienópolis pois emendaram o almoço em uma roda de jogo de pôquer valendo dinheiro e abastecida por conversas sobre “assuntos menores da sociedade”.

Ronald de Carvalho

Além de Tarsila do Amaral, outra ausência bastante sentida na Semana de Arte Moderna foi a do escritor Manuel Bandeira. Chamado por Oswald de Andrade de “pai de todos os modernistas”, Bandeira estava enfermo, abalado por uma tuberculose, no 15 de fevereiro de 1922 em que deveria estar no Theatro Municipal declamando o seu “Os Sapos”.

Assim, sobrou para o poeta e político carioca Ronald de Carvalho receber a honra de interpretar “Os Sapos” e também as intensas vaias naquele que foi o dia mais agitado da Semana. O poema era uma crítica aos poetas parnasianos já que Manuel, assim como Ronald, era um adepto dos versos livres. Então marcado por “Poemas e Sonetos e História da Literatura Brasileira”, publicado em 1919, Carvalho publicou o seu primeiro livro de versos livres ainda em 1922: “Epigramas Icônicos e Sentimentais”.

Saldo negativo

Apesar dos ingressos caros e do apoio de parte da oligarquia cafeeira de São Paulo, a Semana de Arte Moderna não foi um sucesso financeiro. Na verdade, muito ao contrário. De acordo com o que foi publicado pelo jornal “A Gazeta”, de São Paulo, no dia 23 de fevereiro de 1922, o saldo negativo foi de sete contos de réis. A expressão “conto de réis” era utilizada como sinônimo de um milhão de réis.

Uma vez mais, cabe esclarecer que não há uma calculadora precisa para definir quanto isso representa em valores de hoje. O que se sabe é que, com 7 milhões de réis, seria possível comprar 35 mil exemplares da edição do dia de “O Estado de S. Paulo”.

Theatro Municipal

Palco da Semana de Arte Moderna, o Theatro Municipal de São Paulo foi inaugurado em 1911. Curiosamente, em uma época em que a corrente artística no Brasil tinha filosofia totalmente oposta à do modernismo: era um momento em que o Brasil se espelhava nas principais capitais europeias para construir ruas, prédios e também os teatros. Assim, o Theatro Municipal foi idealizado pela nova elite paulistana, preocupada em dar um ar “europeu” para a cidade, nos moldes da Ópera de Paris.

Apesar dessa aparente incongruência, a escolha pelo Theatro Municipal se justifica. Primeiro, era um local extremamente bem localizado, no centro do São Paulo e onde a burguesia da cidade se reunia. Depois, até por isso, era o local ideal para provocar o “choque” pretendido pelos modernistas. A ideia de romper com a “europeização” da cultura em um local tão emblemático para esse processo provocou forte reação e ajudou a ampliar o alcance da Semana.

“Um só coração”

O movimento modernista e a Semana de Arte Moderna foram tema de incontáveis livros e trabalhos acadêmicos. Em 2004, como parte das comemorações pelos 450 anos de São Paulo, a Semana foi tema da minissérie “Um só coração”, exibida pela TV Globo. A trama de Maria Adelaide Amaral teve Eliane Giardini e José Rubens Chachá interpretando a dupla Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Outras personagens envolvidas na minissérie, que mostrou a articulação para a criação da Semana de Arte Moderna, foram Anita Malfatti (Betty Goffmann), Mário de Andrade (Pascoal da Conceição), Menotti Del Picchia (Ranieri Gonzáles) e Assis Chateaubriand (Antonio Calloni).

Depois de mostrar a Semana de Arte Moderna, a minissérie contou ainda a história de amor de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral e os movimentos que se sucederam ao modernismo. Outra homenagem aos artistas da Semana de 1922 na cultura popular veio na Marquês de Sapucaí 70 anos depois: com o enredo “Paulicéia Desvairada”, a Estácio de Sá arrebatou o público carioca com a arte moderna de São Paulo e conquistou o seu até aqui único título de campeã do carnaval do Rio de Janeiro.

Vanguardas

Embora tivesse por princípio construir uma vanguarda artisticamente genuinamente brasileira, a Semana de Arte Moderna teve influência de diversas vanguardas europeias. Quatro delas se destacam de maneira marcante: primeiro, o futurismo italiano; o futurismo é considerado um movimento antecessor ao modernismo pois surgiu no início do século XX (não à toa muitos modernistas de início eram chamados de futuristas). Da França veio o cubismo do espanhol Pablo Picasso, marcada pela utilização de formas geométricas regulares para representar a natureza – algo revolucionário para a época pois abandonava a busca pela representação fiel da realidade.

Outra vanguarda europeia de forte influência sobre os modernistas foi o expressionismo alemão. Do ponto de vista da linguagem, foi uma das grandes novidades importadas pelos modernistas pois substituiu a expressão artística do real pela expressão artística das emoções e dos sentimentos, como já havia destacado Graça Aranha em seu discurso de abertura (ver José Pereira da Graça Aranha). Por fim, destaca-se o dadaísmo, que é praticamente contemporâneo dos modernistas brasileiros, e também tinha o objetivo de confrontar os padrões estéticos formais e o conservadorismo artístico com formas inovadoras.

Washington Luís

Além do apoio financeiro de parte da oligarquia cafeeira de São Paulo, a Semana de Arte Moderna também teve o apoio político do governador Washington Luís. Aliás, esse apoio foi fundamental para sensibilizar não só parte dos produtores de café de São Paulo que apoiaram financeiramente a Semana, como também os fazendeiros de Minas Gerais que também apoiaram o evento no auge da chamada “Política do Café com Leite” que revezava paulistas e mineiros na presidência da República.

Um período que, ironicamente, terminou muito por causa da ação de Washington Luís. Em 1930, ele escolheu o paulista Julio Prestes para sucedê-lo na presidência, quebrando assim a alternância com Minas Gerais e provocando a revolta dos mineiros. O que antes era uma eleição certa se tornou uma apertada disputa em que Prestes até venceu o gaúcho Getúlio Vargas (candidato de oposição com apoio dos mineiros). No entanto, antes mesmo de tomar posse, Prestes sucumbiu à Revolução que colocou Getúlio Vargas no poder e marcou a transição da República Velha do café com leite para o Estado Nova.

Xenofobia

O modernismo deixou muitos legados positivos, mas também teve os seus efeitos negativos nas artes do Brasil. O nacionalismo que desenhava o movimento (ver “Nacionalismo”) era crítico, ou seja, pretendia valorizar o Brasil sem fechar os olhos para os problemas do país ou mesmo admitir influências estrangeiras. No período pós-modernismo esse nacionalismo se tornou muito mais rígido, passou para o ufanismo e logo ganhou contornos mais perigosos.

A “Escola da Anta”, que tinha esse nome porque buscava valorizar um animal tipicamente brasileiro, é um desses movimentos excessivamente ufanistas, que rejeitava de maneira veemente qualquer estrangeirismo. Os historiadores apontam que o movimento tinha fortes tendências xenófobas, racistas e até mesmo nazifascistas em um momento em que essas correntes cresciam fortemente na Europa no período pré II Guerra Mundial.

Yes, nós temos bananas

As ideias modernistas e de valorização da cultura nacional tiveram muitos efeitos positivos nas artes e na sociedade brasileira como um todo. Depois do modernismo e do seu herdeiro, o antropofagismo, a produção cultural no país passou a ser voltada cada vez mais para as dores e prazeres vividos por aqui e até mesmo com a ousadia de rebater os preconceitos vindos dos países mais ricos. 

Em 1938, já na segunda fase do modernismo, influenciada pelo movimento antropofágico, Braguinha compôs a marchinha “Yes, nós temos bananas”, que fazia uma crítica bem-humorada ao rótulo de “República dos Bananas” que os Estados Unidos destinavam aos países latinos. A marchinha foi gravada por Carmen Miranda, cantora e atriz que, com um figurino e uma forma de representação tipicamente brasileiras, fez enorme sucesso nos Estados Unidos. Não à toa esse período das décadas de 1930 e 1940, da segunda fase do modernismo, é considerado o período de “consolidação” dos ideais modernistas que se iniciaram lá no final da década de 1910. Foi o momento em que essas ideias se firmaram em definitivo nas artes brasileiras e também ganharam espaço mundo afora.

Zé Celso, O Rei da Vela, Oficina e Tropicália

O modernismo levou ao antropofagismo e o antropofagismo levou a outro dos mais importantes movimentos culturais brasileiros: a Tropicália, que explodiu nos anos 1960 com uma proposta que em muito lembrava à dos modernistas 40 anos antes. Atacar o conservadorismo na produção artística e usar as influências estrangeiras (principalmente, nesse caso, o rock and roll) para cantar as maravilhas e denunciar os problemas do Brasil. A Tropicália nasceu com um manifesto inspirado no Manifesto Antropofágico escrito pelo modernista Oswald de Andrade de 1928.

A presença do modernismo nesse movimento cultural quase meio século mais jovem não se encerra por aí. Um dos marcos iniciais da Tropicália se deu no Teatro Oficina, recuperado no início da década de 1960 pelo ator e diretor Zé Celso Martinez. Em 1967, Zé resgatou o revolucionário texto de Oswald de Andrade, escrito em 1937, e dirigiu uma nova versão para a peça “O Rei da Vela”, que satirizava com bom humor a subserviência do Brasil ante os países mais poderosos do mundo. A peça é um dos grandes marcos da Tropicália no teatro e também no cinema, já que foi adaptada para as telonas, também sob a direção de Zé Celso Martinez, em 1982.

 

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