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“Sala Especial”: histórias que nossas babás não contavam nas noites de sexta

2 de outubro de 2014

“Filho, vá dormir”, gritava do quarto o pai de Marcelo Mendez. O relógio já passava da meia-noite da sexta para o sábado. A televisão Phillips, de 28 polegadas, estava ligada na TV Record, num volume bem baixo. A emissora iria começar a exibir a sessão de filmes “Sala Especial”, uma seleção de pornochanchadas brasileiras. Deitado no sofá-cama preto, de molas velhas e furos aparentes, sempre coberto por uma manta que chegava aos pés, o garoto de 11 anos se esbaldava com os corpos de Aldine Muller, Matilde Mastrangi, Helena Ramos e Nicole Puzzi, entre outras.

No chão de taco, Marcelo deixava um bule de café sempre à mão para mantê-lo desperto. O pai, Mauro, engenheiro eletrônico, poderia dar o “flagrante” a qualquer momento, o que obrigaria mais uma corrida afoita do menino ao seletor da televisão para mudar logo de canal. Quando não havia interferências, a noite do garoto tornava-se mágica – e aqui não vamos entrar em detalhes. A pequena casa de três cômodos, localizada no bairro Novo Oratório, periferia de Santo André, na Grande São Paulo, abrigava aquele que se tornou um dos maiores colecionadores das pornochanchadas transmitidas na “Sala Especial”. Hoje, com 43 anos, Marcelo Mendez dispõe de 100 filmes eróticos gravados em fitas VHS e armazenadas na lavanderia de casa. “Estão um pouco deteriorados”, conta o jornalista. “Guardo porque representam a descoberta da minha sexualidade”.

A rotina de Marcelo Mendez era repetida por inúmeros jovens daquela época – a maioria dos telespectadores da sessão de “filmes adultos”. Transmitida de 1979 até 1986, a “Sala Especial” era o programa que mais dava audiência ao canal (média de 14 pontos). O programa tinha o início marcado para as 23 horas, porém sempre começava depois da meia-noite, antecedido pelas histórias policiais de Jacinto Figueira Júnior, “O Homem do Sapato Branco”. O locutor, com voz solene, anunciava: “Atenção: a direção da TV Record informa que a sessão Sala Especial tem o objetivo de prestigiar o cinema nacional, os cineastas e os atores brasileiros. Por outro lado, esclarece aos senhores pais que este horário é rigorosamente proibido para menores de 18 anos, de acordo com o Certificado de Exibição, expedido pelo Departamento de Censura da Polícia Federal”.

A partir daí, começavam a passar pela telinha filmes com títulos muito criativos, como “Já Não se Faz Amor como Antigamente”, “A Viúva Virgem”, “A Super Fêmea”, “A Filha do Padre”, “Aluga-se Moças”, “Os Bons Tempos Voltaram – Vamos Gozar Outra Vez”, “Nos Tempos da Vaselina”, “Oh! Rebuceteio!”, “Bonitinha, Mas Ordinária”, “Mulher Objeto” e “Como Era Boa Nossa Empregada”. Um dos filmes mais exibidos dentro da Sala Especial foi “Histórias que Nossas Babas não Contavam”, com a mulata Adele Fátima no papel de Clara das Neves, uma sátira à história de Branca de Neve. Era um tempo em que os garotos raramente tinham contato com cenas de nudez.  Os filmes não mostravam cenas de sexo explícito nem pelos pubianos. O máximo eram seios e bundas de atrizes já consagradas e de outras nem tanto.

Ah, sim, havia os atores também.  Os astros da “Sala Especial” eram David Cardoso, Cláudio Cunha, Antônio Fagundes e Nuno Leal Maia. Nuno começou a carreira em 1973, na pornochanchada “Anjo Loiro”, onde atuou ao lado de Vera Fischer. “Foi uma experiência incrível, eu aprendi muito”, afirma Nuno, que fez seu último papel em 2013, na novela Malhação. “Não imaginava que dividiria os corredores da Rede Globo com a Vera.” O ator participou de 27 filmes eróticos, mas, como o próprio ressalta, “não eram pornô, não tinham sexo explícito”.  O mais lembrado é “O Bem-Dotado – O Homem de Itu”, cujo cartaz ilustrava a página da comunidade “Sala Especial” na finada rede Orkut, que tinha 241 participantes.

Como os espectadores de “Sala Especial” bem lembram, alguns filmes possuíam cortes nas horas picantes. “Enviava o negativo e ele voltava danificado nos trechos que os censores acreditavam ser proibidos, não conseguíamos burlar”, conta o cineasta Mauricio Rittner, autor de três filmes do gênero. Os cortes exigidos pelos censores eram feitos na Embrafilme, empresa estatal que financiava os filmes nacionais. A maioria das obras era produzida na região central de São Paulo, a chamada “Boca do Lixo”, precisamente no quarteirão da Rua do Triunfo. A mais destacada era a Cinedistri, de Aníbal Massaini Neto, que tinha a preferência da Record para transmitir seus filmes, já que era a produtora mais famosa de pornochanchadas à época. “Comecei a assistir em 1981, e não parei mais”, conta Marcelo Mendez. “Gravei todos filmes desde 1985. A ‘Sala Especial’ era minha grande companheira, sinto falta daqueles tempos”.

Que música era tocada na abertura de “Sala Especial”?

Vi na internet que alguns fóruns estavam tentando desvendar o nome da música tocada na abertura da sessão das noites de sexta. O aplicativo Shazam dá como resposta “Night of The Stars”, composta por E. Arnold no álbum Retro VIP Lounge (2012). Passei essa missão para Antonio Mier, criador do Caçadores da Música Perdida, e o mistério foi desvendado. Este álbum reúne vários artistas pouco conhecidos pelos nomes. O trecho está disponível no meio da música.

Ele conta como foi feita a pesquisa: “O lounge music foi um estilo de comum nos anos 50 e 60, que misturava harmoniosos swings e sons que conhecemos hoje como bossa nova. Foquei a pesquisa em algumas orquestras da época e discos que se destacaram no final dos anos 60 e 70. Ouvindo algumas dessas orquestras, fui “peneirando” até encontrar aquela que tinha características semelhantes aos da vinheta do “Sala Especial” (batidas, trompetes e saxofones). Cheguei ao Pete Moore Orchestra. Pete Moore foi compositor e arranjador de vários sucessos na década de 50, 60 e 70. Finalmente encontrei o disco “Exciting Sounds Of Tomorrow” (1969) e consequentemente à música utilizada na vinheta de abertura de “Sala Especial”O que ouvimos na vinheta é apenas a introdução da música “A Girl is A Girl“, composta pelo maestro e compositor inglês Eric Winstone.

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2 Comentários

2 Comentários

  1. Toni

    Tinha quase certeza que a Sala Especial passava na TVS do Sílvio Santos, atual SBT.

    Responder
  2. Roberto Donizetti

    Pôxa, realmente esta é uma curiosidade. Não sabia que um dos maiores colecionadores de Pornochanchada mora bem próximo da minha casa. Qualquer hora vou dar um pulo lá. Hahahaha! Mas realmente, a sessão Sala Especial marcou história na época da boa e antiga TV Record. Não somente por causa da Sala Especial, mas boa parte da Programação da Emissora nos anos 80 era muito boa. Ótimos seriados e desenhos, além de bons filmes e programas.

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