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Filha de Fidel Castro fez ensaio secreto para a revista Playboy. Por que as fotos nunca foram publicadas

26 de novembro de 2016

Na manhã de 9 de março de 1998, uma segunda-feira, o jornalista Ricardo Setti, então diretor de redação da revista Playboy, desembarcou no aeroporto de Barajas, em Madri, com uma missão secreta. Ela foi fechar uma negociação que se tornaria histórica: levar para a capa e para o principal ensaio fotográfico, nua, ninguém menos do que a única filha do ditador cubano Fidel Castro, Alina Fernández Revuelta. Fidel, falecido na noite de ontem, aos 90 anos, tinha outros sete filhos. Setti contou os bastidores dessa negociação de três anos, como foi feito o ensaio e por que as fotos feitas por J.R. Duran nunca foram publicadas num dos capítulos do livro Histórias Secretas – Os Bastidores dos 40 anos de Playboy no Brasil, recém-lançado pela Editora Panda Books.

No livro, Setti apresentou Alina assim: “A ‘filha rebelde’ de Fidel, fruto de um affaire de uma mulher casada e rica, Natalia “Naty Revuelta”, com o líder barbudo nos primórdios da luta contra a ditadura de Fulgencio Batista em Cuba, reunia sem dúvida condições para ser uma surpresa espetacular na capa de Playboy. Ela conseguira capturar manchetes do mundo todo ao fugir de forma rocambolesca da ilha em dezembro de 1993, rumo a Madri, com passaporte espanhol falso e um disfarce que incluía a imitação do sotaque castelhano, roupas espalhafatosas e uma peruca. No ano seguinte, de novo ganharia destaque na mídia ao protestar publicamente contra a presença de Fidel na Assembléia Geral da ONU, em Nova York”.


O Blog do Curioso reproduz agora o trecho do capítulo de Ricardo Setti, que conta como foram as sessões de fotografia em Roma e por que a direção da Editora Abril resolveu pagar uma multa pelo distrato do contrato e não publicou as fotos:

“No esplêndido Hotel Excelsior, com seu saguão de mármore, seus lustres de cristal, vitrais, quadros a óleo e pesadas cortinas, Ana e Ariani se instalaram na grande suíte que serviria de locação, onde também guardaram o que Ana denomina ter sido “uma montanha de malas de produção”. Para que [o fotógrafo J.R.] Duran pudesse trabalhar na suíte, elas pulariam da cama às 6 da manhã dos três dias de trabalho previstos.
O primeiro encontro de Duran com Alina se daria no bar do saguão, com as bebidas iluminadas em azul no balcão de serviço, emoldurado por um vitral decorado e cadeiras de couro sobre as quais pendia um enorme lustre cor de âmbar. Duran notou que Alina, sorridente e tranquila, só comia uma ou outra azeitona. Não quis jantar com a equipe, preferindo que [o marido] Jaime [Manso Zubeldía, advogado, ex-oficial da Marinha Mercante espanhola e presidente de uma ONG de ajuda humanitária a cubanos], providenciasse algo para comer no quarto.
O trabalho começaria logo de manhã, e o time de Playboy refez as energias no restaurante Nino, funcionando desde os anos 30 perto da Piazza di Spagna. Duran se lembra de haver pedido fagioli al fiasco, um prato à base de feijão branco com sálvia que o dono lhe segredou ser o preferido por um frequentador brasileiro assíduo e célebre: o dono das Organizações Globo, Roberto Marinho.

O bom clima da véspera não se repetiria na suíte pronta para o ensaio. “Quando ela olhou para as roupas”, relata Ariani [Carneiro, produtora de Playboy], “não conseguia esconder uma expressão de insatisfação”. Alina não se constrangeu em despir-se diante do fotógrafo. Estava, entretanto, travada e alheia. Ainda por cima, carrancuda: não sorria de jeito nenhum. “Ela estava péssima, e dizia às claras que não se interessava pelo ensaio, e sim pelo dinheiro”, recorda-se Ana Maria. “Mostrou-se desde o início extremamente blasée”, completa Ariani.

Experiente, Duran deixou o barco correr. “Nunca me preocupo com o primeiro dia porque a feitura de um ensaio é um processo”, ensina. O panorama passou realmente a pesar no segundo dia. “Normalmente levo as coisas para o terreno de to play, em inglês, ou seja, brincar, que consiste em a pessoa deixar de ser ela mesma para se transformar em alguma personagem”, diz Duran. “Com Alina, porém, essa situação nunca acontecia”.
Durante o primeiro encontro no bar, rememora Duran, “parecia tudo excelente, não percebi um sinal do que iria encontrar. Talvez eu fosse mais inocente do que sou hoje”. O problema dela, acrescenta, “não foi a nudez, foi que ela não estava lá”.

Ariani vai na mesma linha: “Eu tinha certeza de que ia dar certo. Ela não transparecia esse ar pesado que surgiu depois”.
Durante as sessões de foto, Ariani procurava animá-la:
– Está ficando ótimo! Olha que foto linda!
E Alina, próxima ao descaso:
– Sí…
Ana Maria [Moreno, supervisora administrativa da redação] rememora que Duran provocava, brincava, sugeria:
– Rite um poco! (“Ria um pouco”).
E Alina:
– Reir de qué?

“Na nossa conversa no bar, ela riu bastante”, ressalta Duran. “Foi a última vez que a vi rindo”. A certa altura, o fotógrafo pediu que todos – Ariani, a assistente, o maquiador – saíssem e conversou a sós com Alina. As coisas estavam indo bem, ela apareceria bem nas fotos, havia harmonia na equipe, não se divisavam problemas à vista – mas era necessário ter um ar mais entusiástico, um olhar mais insinuante. Era preciso sorrir.

– No río jamás – alegou Alina, contra todas as evidências testemunhadas anteriormente por [editor Humberto] Werneck, Ariani, Ana e o próprio fotógrafo – E também por mim, quando fui a Madri tratar com ela. 
“Sem algo que crie uma empatia com o leitor da revista”, explicaria Duran, “um ensaio de nu não funciona. É preciso um olhar interessante e pelo menos um meio sorriso. Pode ser uma Gioconda. No caso de Alina, no começo tudo parecia ótimo, mas acabou se tornando um pesadelo”. Ariani não se esquece: “Ela tinha uma tristeza permanente nos olhos, uma mágoa constante. E não dizia ‘estou insatisfeita’, mas ‘sou uma pessoa insatisfeita’”.

 Com dois dias e meio de sessões de fotos, de três programados, Duran declarou o trabalho terminado. Clicara cerca de 30 rolos de 36 fotos cada, em cromos (slides). Ana e Andrea [assistente de J.R. Duran] aproveitaram a folga imprevista para conhecer as Catacumbas. Ariani começou a arrumação de toda a vasta bagagem. A equipe voltaria na noite do quarto dia, em voo para São Paulo. No tempo restante, Alina animou-se a acompanhar Ana e Andrea e conhecer o Vaticano. Ariani, que estivera anteriormente em Roma a passeio e trabalho, preferiu caminhar um pouco pela esplêndida vizinhança do hotel e comprar, para presentes, garrafas de limoncello, licor de limão típico do sul da Itália. Feitas as despedidas, ela preocupava-se com o que os filmes mostrariam.
Não sem razão. Em São Paulo, o próprio Duran não escondia o desapontamento quando levou uma seleção de fotos já reveladas à redação, no 15º andar do moderno e imponente Edifício Abril, na  Marginal de Pinheiros. Trazendo o selo de qualidade de Duran, elas estavam impecáveis: a luz, os enquadramentos, as poses, os ângulos, os fundos, as cores.

Para quem eventualmente se preocupava com as formas de Alina, não havia maiores problemas: as fotos exibiam uma mulher madura, mas dotada de encantos, com seios firmes e pernas bonitas. A expressão da filha de Fidel, porém, configurava um anticlímax: rosto sério, quando não fechado, ar indiferente ou mesmo contrafeito. Em centenas de slides, nem um mísero sinal de felicidade a iluminá-la.

Depois de muito ver e rever as fotos, discuti-las com o próprio Duran e com nosso campeoníssimo diretor de Arte, Carlos Grassetti – profissional extremamente meticuloso e exigente –, pensar e repensar, levei-as a Thomaz Souto Corrêa [vice-presidente e diretor editorial] com meu veredito: daquele jeito, não queria publicar.
Explicaríamos a Alina as razões, procederíamos a um distrato, pagaríamos uma multa, mas o leitor de Playboy não veria uma mulher tristonha e sem luz nos olhos. Thomaz chegou a hesitar, diante do tamanho do furo em alguma medida jornalístico que tínhamos em mãos, mas concordou. Grassetti também, e igualmente Marcos Emílio Gomes, jornalista de grande quilate que me acompanhara em diferentes redações e, àquela altura, trocara o posto de editor especial com Werneck e assumira como redator-chefe. Duran, no final das contas o autor das fotos, aprovou integralmente a decisão.

O diretor de Masculinas entendeu minhas razões e passamos ao distrato, que não representou grandes dificuldades, exceto uma sangria nos cofres da Editora Abril de aproximadamente 11% do valor do contrato e um indisfarçável dissabor de Nicolino [Spina]. Eu e Ana Maria conversamos várias vezes com Alina por telefone, trocamos um bom número de mensagens de fax e acertaram-se os detalhes.

Os papéis seguiram por correio expresso e voltaram assinados. Cumprida a burocracia do Banco Central, Alina recebeu a multa e nos enviou um recibo. O processo todo alongou-se até abril de 1999. Uma das exigências incluídas no distrato: se qualquer das fotos viesse a ser publicada por uma revista da Abril ou de alguma forma vazasse, deveríamos pagar-lhe o valor integral do acordo.

Não houve, porém, esse perigo. Duran, naturalmente envolvido no processo de discussão sobre a não-publicação, concordara com minha decisão e me trouxe todos os rolos de filmes, incluindo os cromos inaproveitáveis. Com a Abril de posse do recibo de quitação, um certo dia, esperei a redação esvaziar-se e, na mesma noite, com uma tesoura e muita pena, dediquei-me a picar, um por um, os rolos e as fotos. Gastei meia hora e ganhei dedos doloridos.

Finalmente, tomei o cuidado de recolher os pedacinhos, um a um, num envelope, levá-los para casa e jogá-los no lixo doméstico. Tudo terminado – quase quatro anos de esforços literalmente jogados no lixo –, julguei cumprido meu dever para com a qualidade da revista e para com o leitor. Alina, por seu turno, declarou-se aliviada. Em carta pessoal posteriormente enviada a Ana Maria, e que Ana teve a gentileza de me mostrar, escreveu: “Como ya sabes, esta operación abortada casi me satisface más que si hubiera sido todo um éxito”.
(…)
Leal a um pedido meu, Duran guardou absoluto segredo sobre esse assunto durante mais de 10 anos. Quando fui convidado a escrever um texto a respeito do caso para a extinta Revista Alfa, em 2010,  voltamos ao tema, e perguntei-lhe se Alina fora a mulher mais travada que já fotografara.
Ele respondeu:
– Foi a única. E foi a única matéria minha que não saiu.

Pois deixe-me surpreender Duran e, provavelmente, minha ex-equipe e quem leu esta história até aqui: se pudesse voltar no tempo, a matéria teria, sim, saído. Levei anos para chegar a essa conclusão, mas arrependi-me da decisão tomada em 1998.

Hoje, considero que agi com rigidez excessiva em relação aos parâmetros de qualidade que exigia da revista e, com isso, dei um tiro no pé. O ar sisudo de Alina não tirava a beleza das fotos, nem prejudicava a revelação de seu corpo e muito menos impediria a edição de Playboy de ser um furor, com a filha de Fidel Castro, nua, no esplendor de uma suíte de um hotel de luxo de Roma.

Agora, porém, em todos os sentidos, é tarde demais. E não existe uma foto, uma única foto, para mostrar como poderia ter sido.”
 

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