Novo Livro O Guia dos Curiosos - Edição Fora de Série

“O Importante é ter Charm”: as mulheres e os bastidores da histórica campanha publicitária

27 de outubro de 2014

A fumaça tomava conta do Estúdio Imagem e Som, no bairro dos Jardins, em São Paulo. Os flashes do fotógrafo Meca Assumpção tentavam penetrar a nuvem branca criada pelos inúmeros cigarros acesos. Com ajuda de dois grandes ventiladores, a cortina de fumaça se esvaia por alguns segundos, mas logo voltava. As mulheres mais charmosas do país estavam reunidas ali. Leila Diniz, Danuza Leão, Elke Maravilha e Clementina de Jesus dividiam três tablados com outras 21 mulheres. “Escolhemos as mulheres mais incríveis do início dos anos 70”, afirma José Zaragoza, o Z da agência de publicidade DPZ e criador da campanha do cigarro Charm em 1971. Ele fala até hoje com entusiasmo de O importante é ter Charm.  “Foi uma peça histórica.”

A foto da campanha de Charm: quase não foi veiculada

Quem me apresentou à foto foi o jornalista Carlos Maranhão, meu diretor de redação nas revistas Placar, Playboy e Veja S. Paulo. Descobrir o paradeiro das 25 mulheres seria uma grande pauta, ele me disse, há alguns anos. Pesquisando na internet, só encontrei os nomes das 10 mais famosas. Faltavam ainda 15. Em uma investigação de três meses, capitaneada pelo repórter Lucas Strabko, o Blog do Curioso chegou a 22 nomes (embora faltem os sobrenomes de quatro delas). Com essas informações, foi possível contar a história de 17 das 25 mulheres. Confira a foto mais abaixo. A ideia é que o compartilhamento desta reportagem nos ajude a encontrar os nomes completos e as histórias de todas elas.

No começo dos anos 70, o cigarro – que o cinema ajudou a transformar em símbolo de sedução e charme – ainda era um produto voltado aos homens. Mulheres com um cigarro na boca eram malvistas. Em 1971, a Souza Cruz,  decidiu criar o cigarro Charm, mais fino e mais fraco, feito especialmente para mulheres, inspirado no cigarro americano Virginia Slims. Chamou a DPZ para criar a campanha. “O objetivo era causar impacto”, conta Marcius Cortez, redator da campanha. “O cigarro deveria representar um universo feminino bem diferenciado, que se afirmava cada vez mais” . O desenho dourado da embalagem foi criado pelo próprio  Zaragoza.

“Naquela época, era charmoso fumar”, afirma Elke Maravilha, que começou com os cigarros mentolados há 34 anos e não parou mais. No ano da foto, Elke tinha 26 anos e já havia experimentado cigarros, ao contrário de outra estrela da propaganda. “Na primeira tragada, fiquei tonta, pois nunca tinha fumado”, revela Paula Plank, à época com 20 anos e produtora de moda em revistas da Editora Abril. “Eu assoprava o cigarro, nem conseguia segurá-lo direito.” A campanha do Charm foi o propulsor do hábito adquirido por Paula, que começou com Charm, passou por outras três marcas, até chegar ao Marlboro. “Eu me sentia o máximo por ter fumado, e hoje sou criticada por isso”, diz.

Por causa do fumacê, o fotográfo Meca Assumpção conta que quase todo o material foi parar na lata do lixo. “Acendemos trilhões de cigarros, um novo a cada foto”, exagera Danuza Leão. Era necessário trocar a chapa da máquina a cada fotografia tirada, o que demorava, aproximadamente, 30 segundos – abrindo espaço para as 25 mulheres falarem sem parar. “Eu gritava para elas se calarem, mas ninguém me ouvia, tirei vinte fotos e escolhemos o que estava melhor”, afirma Meca Assumpção. Mas, não havia uma com resolução perfeita, a maioria das fotos ficou embaçada, então o fotógrafo levou os cliques para os Estados Unidos, onde as fotos foram tratadas durante 10 dias pela técnica de ampliação chamada Day Transfer. “Retocaram todos os cigarros com pincéis, recortaram as fotos das moças com tesoura para encaixá-las no que seria a foto final”, lembra Meca, que pagou 40 mil dólares (o equivalente a 200 mil reias em números atualizados) pelo tratamento das imagens. “Se houvesse photoshop, como hoje, qualquer criança poderia fazer”.

As 25 mulheres mais charmosas de 1971: você conhece mais alguma?

No dia da gravação houve uma clara separação entre paulistas e cariocas, que “se juntavam em panelinhas”, de acordo com uma das modelos. Apesar da rivalidade, havia um consenso: o carinho de todas pela cantora Clementina de Jesus. “Ela chegou no estúdio gritando que não queria fumar Charm porque era muito fraco”, lembra Marcius Cortez. Os bons contatos também ajudaram na escolha das meninas: Mary Kopenhagen era namorada do fotógrafo da DPZ, David Zingg; Paula Plank namorava Marcius Cortez; e José Zaragoza possuía um profundo carinho por  Renata Souza Dantas, hoje casada com um empresário alemão.

Sobre o cachê, ninguém se lembra do valor pago pela foto. “Só sei que mulheres mais famosas ganharam mais que a gente”, afirma a jornalista Célia Pardi, então com 21 anos, que ficou próxima de Elke Maravilha e Ilka Soares na foto. De acordo com Marcius Cortez, o maior cachê foi para Leila Diniz, que estava grávida de Janaína Diniz na época. Algumas meninas que não eram tão conhecidas aceitaram fazer a propaganda por um cachê baixo, apenas para estarem em meio às grandes estrelas, o que hoje reflete na dificuldade para descobrir as 25 mulheres que estrelaram um dos “cases” mais históricos da publicidade brasileira.

O perfil das “Mulheres de Charm” já localizadas:

Leila Diniz: Além de charmosa, era o que a campanha buscava: uma mulher à frente de seu tempo. Foi uma das primeiras mulheres a usar biquíni na praia mesmo grávida. Faleceu em 1972, aos 27 anos, em um acidente aéreo na Índia, quando voltava de uma viagem à Austrália. Em 1969, depois de ser entrevistada pelo jornal O Pasquim e dar declarações bombásticas, como sua adoração pelo sexo, o governo militar regimentou a censura prévia à imprensa, na lei popularmente conhecida como “Decreto Leila Diniz”.

Danuza Leão:  Jornalista e escritora brasileira, trabalhou de 2001 até 2013 como colunista do jornal Folha de S. Paulo. Escreveu três livros, sendo o mais famoso “Na Sala com Danuza”, com crônicas sobre o cotidiano da autora. Foi casada com o jornalista Samuel Wainer, com quem teve a artista plástica Pinky Wainer. Diz que deve ter fumado o cigarro Charm porque sempre mudava de marca, mas, por problemas de saúde, largou o vício.

Clementina de Jesus: Neta de escravos, a cantora trabalhou por vinte anos como empregada doméstica, até ser descoberta pelo compositor Hermínio Bello de Carvalho, em 1963. Convidada para participar do show “Rosa de Ouro”, tornou sua voz famosa e eternizou-se na música brasileira. Chamada por quase todos de “Mãe”, sofreu um derrame em 1987, aos 86 anos, e faleceu.

Elke Maravilha: Chegou da União Soviética em 1951, aos 6 anos, junto com os pais e dois irmãos. Instalou-se em Itabira (MG). Aos 20 anos, foi ganhar a vida no Rio de Janeiro: a profissão de secretária bilíngue a possibilitava para pagar sua faculdade de Letras. No mesmo ano da propaganda, perdeu a cidadania brasileira por protestar em um aeroporto contra a morte do filho de Zuzu Angel, Stuart Angel Jones.  Casou-se oito vezes. Começou a fumar com 35 anos, e até hoje somente compra cigarros mentolados.

Ilka Soares: O ano de 1971 foi especial para Ilka Soares, então com 39 anos: atuou nas novelas “Bandeira 2” e “O Cafona”, ambas da Rede Globo. Marcou época na televisão brasileira por ter trabalhado em 19 novelas. Começou a carreira como atriz no filme “Iracema”, de 1949. A última atuação foi em 2013, no filme “Vendo ou Alugo”, no personagem de Clotilde.

Célia Pardi: Começou a carreira de modelo em 1968, com 18 anos. Em 1971, era modelo da Editora Abril. Tornou-se jornalista em 1975, para ser coordenadora de moda das revistas da Abril. Conseguiu popularizar a revista Capricho. Em 1988, tornou-se diretora de redação da revista Cláudia, onde permaneceu até 2002. Foi colunista das revistas Moda Moldes e Uma, hoje possui o blog “Viver aos 60”. Abandonou o cigarro Hollywood há 25 anos.

Tânia Caldas: Foi a segunda mulher do ator Raul Cortez. Nos anos 70, Tânia atuou em filmes da pornochanchada brasileira, como “Gente que Transa” e “Cada um Dá o que Tem”. Em 1971, com 24 anos, atuou no filme “O Barão Otelo no Barato dos Bilhões”, que tinha como personagem principal o ator Grande Otelo, ao lado de Dina Sfat, uma das 25 “mulheres de Charm”. Na foto da campanha, é a única que não aparece com cigarro em mãos. Tânia não fumava.

Vera Valdez  (ou Vera Barreto Leite): A primeira top model brasileira está com 78 anos. Há seis anos, fez um ensaio seminua para a revista Trip, que causou muito furor à época. Começou sua carreira de modelo na França, até se tornar uma das principais modelos da Chanel. Usando um casaco todo vermelho, encontrou, pela primeira vez, Coco Chanel, que gostou da cor e passou a usar o tom em suas criações. Em 2009, foi homenageada na exposição “Vera Valdez, o Sol da Maison Chanel”. Procurada pelo blog, ela disparou: “Você não ligou para me oferecer trabalhos?”.  Diante da resposta negativa, bateu o telefone.

Maria do Rosário Nascimento e Silva: Do fim dos anos 60 à metade dos anos 70, ela trabalhou em oito pornochanchadas. Casou-se com Walter Clark, diretor-geral da TV Globo, e namorou com o escritor Paulo Coelho – foram amigos por toda vida. Foi diretora, roteirista e produtora, escreveu o livro “Abrace-me Urgentemente”, em 2007, e a obra póstuma “Notas sobre o Abismo”. Faleceu em 2010, aos 61 anos.

Maureen Bisilliat: A inglesa visitou o Brasil pela primeira vez em 1952. Cinco anos depois, voltou para ficar. No lançamento da campanha, em 1971, tinha 40 anos e era fotojornalista da revista Realidade. Conquistou o prêmio de melhor fotógrafa pela Associação Paulista de Críticos de Arte em 1986. Tirou mais de 16 mil fotos em sua carreira. Fumava Hollywood sem filtro, mas abandonou o cigarro.

Paula Plank: Foi uma das primeiras modelos internacionais do Brasil. Cruzou o mundo depois de ter sido contratada pela agência Junko. Ficou pouco tempo no Japão até voltar ao Brasil, quando conheceu  Marcius Cortez, o redator da campanha, com quem namorou por três anos. Atualmente, cuida dos cachorros e faz pilates. Começou fumando Charm, passou por diversas marcas até chegar ao Marlboro – apenas parou de fumar para ter o filho Eric, que trabalha como DJ.

Gunilla Reisler: A sueca trabalhava em uma agência do banco SEB, em Estocolmo, fazendo cálculos em um balcão de atendimento ao público. Léo Reisler, brasileiro estava há apenas seis meses no país que “falava muito mal sueco”, olhava frequentemente para a moça loira. Um dia, tomou coragem e a chamou para ir ao cinema. Namoraram por 6 anos na Suécia até se mudarem para o Brasil. Construiu sua vida no calor brasileiro como modelo, já que possuía uma beleza diferenciada: pele branca e cabelos loiros. Na época da propaganda, com 30 anos, ainda estava casada com o brasileiro e havia se tornado mãe recentemente. Separou-se de Léo em 1992. Hoje, viúva de seu segundo marido, mora em Vila Velha (ES) e nada 2 km por dia na Praia da Costa.

Mary Kopenhagen: Namorada do fotógrafo da agência DPZ, David Zingg, com quem não casou, estrelou uma estudante na campanha do Charm, já que a DPZ buscava atrair todos tipos de mulher para o cigarro Charm. Na época, trabalhava como modelo para o suplemento feminino de O Estado de S. Paulo. O rosto doce tem uma razão: é sobrinha de Silvia Kopenhagen, filha do casal que fundou a fábrica de chocolates Kopenhagen.

Suzana de Moraes: É filha do poeta e compositor brasileiro Vinicius de Moraes. Atriz e diretora de televisão. Trabalhou nas novelas “Rosa Rebelde”, “Véu de Noiva”, “Verão Vermelho” e “Assim na Terra como no Céu”. Em 2010, oficializou a união estável com a cantora Adriana Calcanhotto. Suzana morreu em 27 de janeiro de 2015, aos 74 anos.

Renata Souza Dantas: Retratou uma das vítimas do assaltante João Acácio Pereira da Costa no filme “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), dirigido por Rogério Sganzerla. Atualmente, mora na Alemanha com o marido.

Dina Sfat: Estreou nos palcos em 1962, no espetáculo Antígone América, dirigida por Antonio Abujamra. Em 1965, conquistou o “Prêmio Governador do Estado” na categoria melhor atriz, pelo desempenho em Arena Conta Zumbi. Atuou nas novelas “Selva de Pedra”, “Fogo sobre Terra”, “O Astro” e “Eu Prometo”, entre outras. Em janeiro de 1982, posou para a revista Playboy. Faleceu em 1989, com  49 anos, vítima de um câncer de mama.

Paula Picker: Aos 19 anos, credenciou-se para ser uma das “Mulheres de Charm” por causa de seu chamativo cabelo “black power”. Hoje consultora de moda, Paula não tem apenas uma residência fixa: mora um tempo em São Paulo e usa seu sítio em Londrina como refúgio. É esposa do ex-piloto de avião Neno Oliveira, piloto particular do jato de Ayrton Senna entre os anos de 1989 e 1991, Além de modelo, foi uma das produtoras do grupo “Dzi Croquettes”, espetáculo realizado por homens vestido de mulher, que fazia crítica à ditadura militar. Mais tarde, surgiu o grupo formado por fãs do “Dzi Croquettes”, chamado “As Frenéticas”.

Nice: Famosa no mundo publicitário, sempre fazia o papel de mãe ou avó em comerciais. De acordo com Meca Assumpção, estrelou alguns comerciais de margarina.

O Blog do Curioso adverte: fumar é prejudicial à saúde.

Esta página contém links de afiliados. Ao fazer uma compra por um desses links, o Guia dos Curiosos recebe uma comissão e você não paga nada a mais por isso.

Artigos Relacionados

Together: o projeto secreto do criador de I Love NY

Together: o projeto secreto do criador de I Love NY

Jeremy Elias, repórter do "The New York Times", pensou na pauta: o criador do icônico "I <3 NY", em 1977, estaria pensando em usar a logomarca quando a pandemia acabasse? Elias conta que esperava que seu e-mail fosse respondido por algum assessor do célebre...

5 Comentários

5 Comentários

  1. Marco Antonio Coutinho

    Achei legal, eu estava procurando isso exatamente pra me lembrar delas, dos nomes, etc. Só acho que a que está assinalada como ‘Dina Stat’,não é ela. Não sei quem é, mas não é Dina.
    Achei legal conhecer o nome “Emily May”. Eu me lembro dela massivamente nos anúncios de revista e alguma coisa em TV. Gostava dela, mas não sabia o nome da figura.
    Muito legal esse resgate

    Responder
  2. Marco Antonio Coutinho

    Essa terceira, da direita para a esquerda, na fila de cima, que está marcada como “Lisandra”, não seria a Duda Cavalcanti não?

    Responder
  3. Glecimar

    Não é Dina Sfat com certeza!

    Responder
  4. Fátima Pombo

    Diná Sfat é a mulher ao lado direto da Maureen Bissiliatt!

    Responder
  5. Anônimo

    A de cabelo longo e uma manequim…Cristine na epoca desfilava pela ENERI roupas desenhadas pelo estilista Joseph schustermann

    Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Share This