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Como surgiu o mercado de camisas retrô de futebol e por que ele faz tanto sucesso

12 de fevereiro de 2017

A novidade veio de Inglaterra. É até engraçado falar em “novidade”, pois todas elas já tinham sido usadas por times de futebol muito antes. Então melhor dizer que a ideia nasceu na Inglaterra. Camisas retrô de times e seleções de futebol foram vendidas primeiro pela empresa inglesa Toffs, em 1990. Fiz uma reportagem para o “Loucos por Futebol”, da ESPN-Brasil, com um dos sócios da Toffs em 2002. Logo as camisas retrô se espalharam pelo mundo e desembarcaram no Brasil pelas mãos da Liga Retrô. Foi em 2006 que Marcelo Roisman e Leonard Klamet lançaram 20 modelos de camisas antigas – 19 de futebol e uma de vôlei, lembrando a geração masculina medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Segundo Roisman, a recepção foi surpreendentemente positiva.

Leonard Klanet (à esquerda) e Marcelo Roisman abriram em 2006 a primeira loja de camisas retrô do país (Foto: Divulgação/Gustavo Serenebrick)

Hoje há uma porção de marcas, como RetrôMania, Retrogol, FG Sports Retrô, Ídolos Esporte Clube, Futebolaria, entre tantas outras. Vendem modelos clássicos, feitos em algodão ou em poliéster, que recuperam desenhos marcantes dos principais times do país. Em geral, as réplicas reinventam modelos usados desde a fundação do clube. Pelas ruas das grandes cidades ou nos estádios de futebol crescem os adeptos dessas peças. “As camisas retrô têm um desenho estilizado e acabam adquirindo um status mais “fashion”, diz Erich Beting, jornalista especializado em gestão e marketing esportivo e criador do site Máquina do Esporte, pioneiro na análise dos negócios do esporte. “Elas servem para ir ao bar, à balada, então muita gente adota”.

Em 2006, quando a internet ainda engatinhava no Brasil, o e-commerce não estava muito desenvolvido e a ideia parecia ousada: “Não demorou muito para os próprios clubes nos procurarem interessados em nossos produtos”, recorda. Segundo ele, o marco da expansão aconteceu algum tempo depois: “Fui para a Copa da África do Sul, em 2010, e vi muita gente, não só brasileiros, com nossas camisas”. que conta hoje com mais de 600 produtos em seu estoque – camisas, jaquetas, bermudas e até abridores de garrafas, entre outros. A Liga é a maior loja do ramo e faturou, em 2016, 10 milhões de reais.

Com tanta adesão por parte dos torcedores, não demoraram a surgir os primeiros concorrentes. No final da década passada, o argentino Aldo Viale, em meio às incontáveis viagens entre Buenos Aires e Vitória, cidades onde estava morando à época, percebeu que havia nas camisas retrô um alto potencial de consumo: “De início pensei no Boca Juniors, que vinha de um título na Libertadores. Achei que camisas retrô do Boca poderiam fazer sucesso. Só que na época a situação econômica da Argentina estava muito ruim, enquanto o Brasil vivia uma euforia muito grande nesse sentido”, recorda. Dali em diante, foram precisos alguns passos importantes até que a RetrôMania fosse aberta em 2011. Enquanto Aldo se encarregou de toda a parte comercial e da estruturação interna da empresa, o seu sócio, André Rocha, foi responsável pela logística virtual. Em 2016, o empreendimento faturou 2 milhões de reais vendendo 40 mil camisas.

As duas marcas possuem uma característica em comum: começaram como exclusivamente virtuais, mas aos poucos, foram crescendo e investindo em lojas físicas. E nos dois casos a mola propulsora foi a mesma: a Copa do Mundo de 2014. Tanto Roisman quanto Viale confirmam que a procura pelos produtos clássicos, sobretudo de Seleções, cresceu muito nos anos que antecederam o Mundial. No caso da Liga Retrô, estar no Rio de Janeiro atraiu ainda a atenção dos estrangeiros que visitaram a Cidade Maravilhosa, naquele momento a capital esportiva do planeta. O passo seguinte foi adotar o sistema de franquias – hoje, são 15 espalhadas em seis Estados brasileiros. A RetrôMania tem duas lojas próprias e está iniciando também o planejamento para entrar no ramo do franchising.

Da esquerda para a direita: André Rocha, Aldo Viale e André Cupertino Araújo, da RetrôMania (Foto: Divulgação)

Existem também casos como o da Só Futebol Brasil, que há 16 anos atua no ramo dos produtos esportivos, e de uns tempos para cá começou a investir também nas camisas retrô. “Quem se aventurar no mercado precisa entender como ele funciona. Se sair lançando camisas sem licenciamento, pode ter bons resultados por um tempo, mas logo será processado pelas marcas e pelos clubes, o que será muito pior. Precisa saber também que já temos hoje duas ou três marcas estabelecidas e que se dedicaram muito para isso”, alerta Erich Beting.

Investir neste ramo, de fato, não é nada fácil. Para cada camiseta, é preciso conseguir o licenciamento, ou seja, o direito de usar o escudo e o nome do clube. “É muito difícil porque essa área de licenciamento ainda não é muito profissional. Em muitos times os responsáveis trabalham com outras coisas e cuidam disso no tempo livre. Isso sem falar na questão política: você está no meio da negociação quando muda a diretoria. Aí tem que começar tudo do zero”, lamenta Viale. Mesmo assim, aos poucos ele foi conquistando fornecedores. Diante da recusa de quase todos os times grandes, que já comercializam eles próprios os seus modelos, o jeito foi focar nos clubes de menor porte. Atualmente, são 24 equipes brasileiras licenciadas, com destaque para o Coritiba, campeão brasileiro de 1985, o Santa Cruz e o Vitória.

Roisman concorda que as negociações com os clubes são o ponto mais delicado em um negócio desse porte. No entanto, ele conseguiu atrair a atenção de alguns dos maiores clubes do Brasil – Grêmio, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Palmeiras são alguns deles – por meio de um sistema diferente de negociação: “Temos alguns acordos com as marcas que patrocinam esses clubes e, assim, a possibilidade de vender produtos licenciados dessas equipes”, revela o sócio da empresa que conta com 42 clubes brasileiros licenciados no momento. No entanto, são acordos que deixam o empresário sempre na corda bamba. Afinal, se o time em questão mudar a marca do seu material esportivo, será preciso renegociar com a nova fornecedora ou, em caso de fracasso, tirar de linha as peças que sempre figuram entre as mais populares.

E como sustentar um empreendimento assim sem contar com as retrôs dos maiores clubes do país? A saída é contornar a legislação copiando os desenhos, mas sem inserir os escudos e os nomes oficiais. No sites da RetrôMania e da Liga Retrô, por exemplo, as réplicas do Corinthians são vendidas como do “Alvinegro”, as do Internacional são do “Colorado” e assim por diante. Viale conta que, por via das dúvidas, a empresa mantém uma assessoria jurídica permanente: “No início fomos acionados judicialmente porque, apesar de não inserirmos os escudos, tínhamos no site uma pequena descrição contando a história daquele uniforme. Hoje retiramos essa seção do site”, narra. Já Marcelo Roisman garante nunca ter passado por esse tipo de problema, mas afirma também contar com uma consultoria jurídica para ter consciência dos limites para atuar nesse mercado.

Réplica inspirada no título brasileiro de 1992 do Flamengo não traz o escudo do clube: licenciamento dos maiores times do país é difícil (Foto: Divulgação)

Mesmo sem licenciamento completo, ainda são as camisas dos times grandes que mais vendem. No caso da Retrô Mania, o fato de a maioria das lojas estar no Espírito Santo, onde predominam as torcidas dos clubes cariocas, fazem Flamengo e Vasco figurarem entre os mais procurados. Aldo Viale, no entanto, destaca que os resultados no campo interferem muito nessa questão: “Quando o time vai bem, o torcedor compra tudo. Quando vai mal, não. As camisas do Palmeiras, por exemplo, cresceram muito em vendas”, afirma, citando o atual campeão brasileiro. Já na Liga Retrô, tanto as maiores torcidas do Rio quanto as dos outros estados figuram nas primeiras posições: “O desempenho em campo afeta positivamente as vendas mesmo quando ele é ruim. Algumas torcidas começam a comprar mais quando o time está mal, talvez para relembrar os grandes momentos que já viveram. Temos alguns casos de times rebaixados cujas camisas venderam mais”, conta Roisman.

Além dos clubes mais tradicionais, outros mercados são explorados. Viale optou por expandir a sua clientela a partir de times que sejam fortes em suas cidades de origem. Foi assim que ele conseguiu estabelecer parcerias com Remo e Paysandu, em Belém; com CRB e CSA, em Maceió; e com a Ponte Preta, em Campinas (SP), entre outros: “Uma vez nos contactaram de Araraquara (SP) pedindo uma camisa da Ferroviária. Passaram até os contatos da diretoria do clube e hoje somos parceiros”, exemplifica Aldo. Roisman, por sua vez, cita clubes tradicionais que, mesmo afastados das divisões principais, ainda fazem muito sucesso: os exemplos que imediatamente vem à cabeça de todos são o America, do Rio de Janeiro, e o Juventus, de São Paulo. “São clubes que quase todo mundo gosta”, sintetiza ele, ao explicar o fenômeno que transformou essas camisas retrô em “cult”.

Outras campeãs de vendas são as camisas da União Soviética (tanto a vermelha dos jogadores de linha quando a preta imortalizada pelo goleiro Lev Yashin), da Holanda de Cruyff, da Hungria de Puskas e de tantas outras seleções. A memória afetiva dos torcedores é o que estimula tudo: clubes como a Tuna Luso (PA), o Goiânia, o Mixto (MT) e a Desportiva (ES) ainda estão vivos na lembrança de quem acompanhou Brasileirões inchados, e que viram essas equipes ocasionalmente enfrentarem alguns dos maiores clubes do Brasil. Por isso, elas são procuradas até hoje por quem guarda com carinho as recordações dos uniformes e escudos dessas equipes.

Camisa de Camarões na Copa de 1982 “puxa a fila” na arara com camisas de seleções na Liga Retrô (Foto: Divulgação/Gustavo Serebenbrick)

Erich Beting vê com bons olhos as parcerias entre os clubes pequenos e médios com esse tipo de empreendimento. Segundo ele, até para alguns times grandes é difícil conseguir distribuir camisas oficiais. Falando de médios e pequenos e de camisas retrô, então, é quase impossível pensar em algo mais desenvolvido: “Em um mundo ideal cada clube cuidaria do seu. Mas, no Brasil, são poucos os clubes que dão lucro para o seu fornecedor. Então, não tem jeito de fazer assim. Estabelecer esse tipo de parceria é um bom negócio. O dono da loja sabe que tem ali um mercado, sabe que muita gente chega procurando a camisa do Bangu vice-campeão brasileiro de 1985. E o Bangu, que não tem condição de produzir, entra como parceiro”, exemplifica.

Se em alguns casos o sucesso em grandes competições explica a adesão dos consumidores, em outros temos clubes que sequer alcançaram tal projeção nacional, mas que também têm a sua vez. Casos como o do Alecrim (RN), do Jabaquara (SP) e até do extinto Colorado, que se uniu ao Pinheiro para dar origem ao Paraná Clube, são explicados a partir dos muitos pedidos dos clientes. A partir dessa demanda, a camisa entra no estoque. É o que deve acontecer, inclusive, com um clube que despontou no cenário internacional no final do ano passado: a Chapecoense. Depois da tragédia que dizimou praticamente todo o elenco da Chape, a procura dos clientes por camisas retrô do time cresceram imediatamente. Os dois empresários revelam já ter conversas adiantadas com o clube para obter o licenciamento.

De olho nas tendências de mercado, os comerciantes investem também em camisas clássicas de clubes europeus e até mesmo em outros esportes como o vôlei, o basquete, o automobilismo e o rúgbi: “As camisas de rúgbi são muito bonitas, então muita gente compra mesmo sem saber o que elas representam”, afirma Viale. Investir em esportes emergentes e no mercado futebolístico europeu, que cada vez ganha mais espaço no país, é uma forma de atrair os mais jovens para um comércio que, em um primeiro momento, parece pouco atrativo. Não que eles estejam totalmente alheios à esse fenômeno: “Temos um público na casa de 35 ou 40 anos que consome mais. No entanto, torcedores  jovens também conhecem os ídolos e conquistas do passado e querem sentir que estão fazendo parte da história do clube do coração”, aposta Marcelo Roisman. As mulheres e as crianças são outros dos alvos dos empresários, que têm notado uma demanda cada vez maior das linhas baby, kids e feminina.

Em 2013, Penalty lançou camisas oficiais retrô para (da esquerda para a direita) Vasco, São Paulo, Santa Cruz, Náutico, Figueirense e Ceará (Foto: Divulgação)

Para Erich Beting, os torcedores mais novos realmente tendem a ficar afastados do “boom” no mercado, mas é preciso que os clubes se preparem para uma mudança: “O torcedor do Palmeiras que hoje tem 11 anos, quando tiver 30, vai querer uma camisa retrô do time campeão brasileiro de 2016. Talvez a Crefisa nem exista mais, mas esse torcedor vai querer uma camisa com a marca dela estampada porque foi com ela que o time foi campeão. Então, os clubes precisam estabelecer no contrato que possuem o direito de lançar uma camisa com outro patrocinador e esse patrocinador tem que entender que está fazendo negócio com uma marca que tem uma história de mais de 100 anos. Hoje o Palmeiras jamais peitaria a Crefisa dessa forma para lançar uma camisa da Parmalat, mas acho que daqui a 20 anos os clubes brasileiros já terão avançado nesse tipo de negociação”, aposta.  Em 2013, para citar um exemplo, a Penalty lançou uma linha retrô para alguns de seus clubes – as que fizeram mais sucesso foram a do Vasco e a do São Paulo. A Caixa, em 2016, usou uma logomarca do meio do século passado para estampar seu patrocínio em uma camisa retrô do Cruzeiro. Todos estão de olho no mercado retrô.

Enquanto o Brasil todo reclama da crise econômica que tem afugentado os consumidores, o mercado retrô parece não ter motivos para lamentar. Apesar de não serem tão acessíveis (na média, as camisas oscilam entre R$ 100 e R$ 150), os preços ainda são bem mais convidativos que as camisas oficiais da temporada, sobretudo as dos times grandes. Um modelo retrô custa entre R$ 100 e R$ 150, enquanto os oficiais já ultrapassam a casa dos R$ 200. Além disso, a camisa retrô não tem o curtíssimo prazo de validade das contemporâneas, que são alteradas ano a ano visando, entre outras coisas, engordar os cofres dos clubes.

(Com reportagem de Leonardo Dahi)

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