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Por onde andam as frases de para-choques de caminhão (que não temos visto mais!)

30 de junho de 2016

Viagens são sempre muito inspiradoras. Em 2008, lancei o livro “A Mulher que Falava Para-Choquês”, ideia que nasceu numa dessas viagens de carro para o interior de São Paulo, onde tenho família. Numa parada em um daqueles onipresentes pedágios, fiquei atrás de um caminhão. Li a frase que ele trazia no para-choque e imaginei quantas vezes a cobradora do pedágio – que se chamava Dirce e que acabou virando personagem da minha história – já havia lido a tal “filosofia de estrada”. De uns tempos para cá, no entanto, tenho visto cada vez menos as divertidas e inspiradoras frases.

Não há uma proibição direta, mas uma resolução do Denatran de 2003 obrigou os motoristas a colocarem faixas reflexivas nas cores branco e vermelha no para-choque e limitaram o tamanho dos textos. O objetivo é “reduzir a extensão de danos materiais na parte superior do compartimento de passageiros, dos veículos que se chocarem contra a traseira dos veículos de carga, evitando ou minimizando os traumas nas partes superiores dos corpos das vítimas”, diz a resolução.  A partir disso, alguns caminhoneiros deslocaram as frases para as as lameiras do. Outros desistiram simplesmente da tradição.

Por isso, encontrar  profissionais que pintam para-choques anda difícil. O maior número ainda está na região Nordeste. Eles atuam em postos de gasolina espalhados pela estrada. “Faz dois anos que não aparece mais nenhum caminhão por aqui”, conta Raimundo de Castro Lira, 47, letrista na cidade de Salgueiro, em Pernambuco. “Os caminhoneiros não estão mais querendo saber disso”.  Carlos Henrique, que trabalha no Posto Progresso da BR-232, também em Pernambuco, chegava a pintar até oito para-choques por dia. “Sem contar frases adesivas no para-brisa e no vidro lateral”, acrescenta. Hoje saiu do ramo.

A prática começou em 1950 na Argentina e logo chegou também ao Brasil. Mesmo carregados do espírito aventureiro e deixando “um amor em cada posto”, os caminhoneiros nem sempre são donos dos caminhões que dirigem.  Rinaldo Gomes Barbosa, caminhoneiro do ABC, trabalha numa transportadora de lixo e não tem frase no caminhão. “Até gostaria de ter uma frase se o caminhão fosse meu. Existem empresas que liberam a frase no borrachão, mas não é o caso da minha. Dizem que os textos tiram a atenção das pessoas.”, lamenta. “Acabei de colocar uma lameira e estou pensando em pintar uma frase sobre a minha família”, diz Edimilson Cipriano da Silva, caminhoneiro autônomo, que faz viagens entre São Paulo e o interior.

“O que pode estar acontecendo é que, com a legislação em vigor, a visibilidade das frases não tenha o mesmo efeito que antes, quando não havia a obrigação das dimensões atuais e elas ficavam bem visíveis”, opina Fernanda Souza, do departamento de comunicação social da Polícia Rodoviária Federal. “Há também mudanças culturais nos motoristas, que passaram a utilizar de outros meios, como redes sociais, para passar suas mensagens”.

No livro “Filosofia dos Pára-Choques”, de 1974, o autor Mauro de Almeida faz uma interpretação das frases e atribui o significado delas à vida do caminhoneiro.  Os motoristas personalizam seu veículo “como um toque de Midas que faz tudo à sua imagem, que infunde a própria alma naquilo em que toca, fazendo dos objetos um prolongamento de si mesmo. Se um homem é sentimental, seus instrumentos de trabalho revelam-no”, escreveu Mauro.

Sem as frases de para-choques não teremos mais histórias como a do caminhoneiro paulista Marcos Antônio Louro, 54 anos. Uma frase que carregou em seu caminhão conquistou Cleonice Louro, filha de fazendeiro do interior do Paraná. Quando o caminhão se aproximou, Cleonice leu: “Vou rezar 1/3 para achar 1/2 de te levar para 1/4”. Todo galanteador, Marcos disse: “Fiz para você”. Cleonice acreditou e estão juntos até hoje. Têm dois filhos (28 e 26 anos) e Marcos continua cruzando o país com cargas de até 60 toneladas. A frase não está mais no para-choque, mas ele fez questão de colar um adesivo com os mesmos dizeres dentro da boleia.

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