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O hábito de dar “gorjeta” nasceu na Alemanha no século XVI

14 de março de 2017

O presidente Michel Temer sancionou ontem uma lei que regulamentará as gorjetas e taxas de serviço concedidas pelos clientes em bares, restaurantes e demais estabelecimentos. Agora, o agrado será registrado na carteira de trabalho e nos contracheques dos empregados. Trata-se da institucionalização de um hábito caracterizado historicamente pela informalidade. É bem verdade que há muito tempo os próprios restaurantes incluem o serviço na conta (ainda que o pagamento seja facultativo), mas, ainda assim, foi da boa vontade do cliente que nasceu a gorjeta.

“A palavra “gorjeta” vem do latim “gurg”, que significa garganta. Essa expressão então passou a significar algo para molhar a garganta”, explica Deonísio da Silva, Doutor em letras pela Universidade de São Paulo e autor do livro “De onde vem as palavras: frases e curiosidades da língua portuguesa”. A relação entre “molhar a garganta” e recompensar um garçom vem de um costume alemão do Século XVI: lá, o prestador de um serviço era frequentemente agraciado com uma bebida ou com o dinheiro para comprar uma.

Foi assim também que uma palavra de significado bem diferente no Brasil se tornou sinônimo de “gorjeta” em Portugal e na Argentina: “Muitas palavras da nossa língua tem origem no latim vulgar. Em Portugal, por exemplo, se pegou o prefixo do latim “pro”, que significa “para” e se uniu ao grego “pinein”, que significa “beber”. Surgiu daí a palavra “propina”, que até hoje os portugueses usam para se referir à qualquer taxa de matrícula”, afirma Deonísio. Com a chegada dos colonizadores ao Brasil, muitas palavras acabaram tendo o seu significado alterado a partir do uso dos nativos e essa foi uma delas: se em Portugal pedir propina é pedir uma gorjeta, no Brasil isso significa oferecer um suborno. “A língua se forma a partir de quem fala”, resume Deonísio. Os franceses chamam a gorjeta de “pourboire” (para beber).

A saia justa com a gorjeta pode ir além de uma pequena confusão gramatical. Ao redor do mundo, a relação com essa prática varia bastante. O que acontece no Brasil (cobrar uma taxa em torno de 10% junto à conta e oferecer ao cliente a opção de não pagar) é bastante comum e se repete em países como Argentina, Uruguai, Chile, Alemanha e Inglaterra. Em outros, como Espanha e Portugal, a gorjeta raramente passa dos 5%. Para os franceses, tudo costuma variar de acordo com o grau de requinte do estabelecimento. No Egito, nos Estados Unidos e no Canadá, não pagar alguma coisa a mais para quem ofereceu o serviço é gravíssimo – os canadenses chegam a deixar 25% do valor da conta. Na outra ponta, oferecer uma gorjeta a um japonês é uma ofensa gravíssima. No Japão, se entende que isso representa soberba e arrogância, como se a gentileza fosse na verdade uma forma de demonstrar maior poder financeiro em relação ao empregado.

 

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