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Porta da Esperança: as maluquices de quem espera por Silvio Santos na frente do Jassa

10 de outubro de 2014

O rapaz de 34 anos andava de um lado para o outro, rondando o tempo todo o Honda Accord preto, estacionado na vaga mais próxima da entrada do salão, composta por duas portas altas de madeira. Segurando um DVD de capa azul com a mão direita, ele entrou e saiu algumas vezes lá de dentro, impaciente. “Preciso entregar meu projeto ao Silvio Santos”, repetia o ator Ricardo Rico, que viajou de Goiânia a São Paulo para encontrar com o dono do SBT. Ao ouvir as batidas dos sapatos do apresentador na escada branca de mármore, Ricardo sentiu a adrenalina subir e foi em direção a ele. “Tenho um piloto de um programa chamado ‘Pedágio’ e gostaria muito que o senhor assistisse”, disse, trêmulo, o ator. Com o DVD em mãos, Silvio Santos, solícito, agradeceu antes de entrar no carro, que ele mesmo saiu dirigindo. “As pessoas sempre vêm entregar projetos aqui na porta do Jassa”, explicou Silvio ao repórter Lucas Strabko. “Já estou acostumado”.

Ricardo Rico veio de Goiânia, marcou corte no salão e conseguiu entregar DVD com piloto de programa de auditório para Silvio Santos

Repórteres, redatores, humoristas, modelos e até colegas de trabalho fazem plantão na frente do salão do cabeleireiro Jassa. Os funcionários já se acostumaram com a movimentação quase diária. O corte marcado por Rico com o cabeleireiro de Silvio, na quarta-feira passada, dia 8, rendeu mais do que uma ajeitada no visual. “O Jassa me contou que ele viria aqui no dia seguinte, era a chance que eu tinha”, narra o ator. Para iniciar os estudos de Teatro no Rio de Janeiro, Rico teve primeiro que concluir o curso de Matemática na Universidade Estadual de Goiás, em 2008. “Tudo foi sempre muito difícil para mim”, conta. “Voltei para Goiás porque a carreira artística deu errado. Comecei a trabalhar como professor.”  O sonho de se tornar apresentador de televisão só aumentou quando ele idealizou o programa de auditório “Pedágio”. “Para o artista pisar no palco, ele precisa antes levantar uma bandeira social, ajudar quem precisa”, explica. Angela Mattos apresentou Ricardo para a irmã, a diretora de TV Marlene Mattos, que dirigiu o projeto. “Levei o programa gravado para o SBT de Goiás, e ele foi aprovado. Agora quero que ele seja visto no Brasil inteiro”.

Silvio Santos na porta do Jassa: “Nunca me entregaram nada de extraordinário aqui”

O novo salão do cabeleireiro Jassa – e ponto de romaria daqueles que querem falar com Silvio Santos – ocupa 450 metros quadrados na Rua Henrique Martins, uma travessa da Avenida Brigadeiro Luis Antônio. Silvio Santos costuma frequentar o salão nos dias de gravação, sempre no período da manhã. O Blog do Curioso encontrou com o apresentador nas duas últimas quintas-feiras. O manobrista Nicarnor Ferreira varre as folhas que cobrem o recuo de aproximadamente 7 metros que serve de estacionamento para os clientes do salão. “É raro quando não há alguém aqui na porta esperando o Silvio”, diverte-se ele, que trabalha há 19 anos com o cabeleireiro. “Já vi gente que bateu ponto aqui duas semanas seguidas”. Para Robson Jassa, o filho do cabeleireiro, a movimentação de fãs, repórteres e candidatos a artistas causa incômodo. “Há 40 anos o pessoal vem aqui para ver o Silvio”, afirma. Mas são os jornalistas que dão mais trabalho. “Precisamos trabalhar e as pessoas até bloqueiam a entrada e a saída”. O repórter Arthur Veríssimo chegou a armar uma barraca de camping para chamar a atenção do apresentador. Veríssimo conseguiu algumas palavrinhas de Sílvio, mas não a entrevista que desejava para a edição de 25 anos da revista Trip.

Por trinta anos, até dezembro de 2012, o Jassa funcionou na Rua Iguatemi. Naquele local, em 2007, o professor e blogueiro Ricardo Pierocini, 38 anos, esperou Silvio Santos cortar seus cabelos avermelhados em doze oportunidades, nas quais obteve sucesso em três tentativas. O primeiro passo foi “pagar uma pequena fortuna” para cortar o cabelo no Jassa para levantar informações sobre a rotina do apresentador.“Entreguei uma lista com ideias de programas e quadros esperando que ele me contratasse”, lembra. Depois de um mês, sem respostas de Silvio, Pierocini voltou ao salão munido de um CD com a leitura de tudo o que estava escrito no papel. “Apurei que ele escuta Roberto Carlos e piadas enquanto dirige”. Na 12ª tentativa, em 2011, finalmente Ricardo obteve êxito. “Ele passou meu telefone para a Iris [mulher de Silvio], que me convidou para que eu fosse até a casa deles naquele mesmo dia. Conversei por duas horas com ela, o Silvio não estava lá.” O bate-papo rendeu dois meses de estágio para o professor no SBT.

O radialista Dayvid Braga queria apenas uma foto ao lado do ídolo e precisou de mais de duas dezenas de tentativas para consegui-la. Ele veio de Araruama, no sul do Rio de Janeiro. “Eu sonhava em ouvir o Silvio Santos falar meu nome”, conta Dayvid Braga. Entre o centro de sua cidade e o salão de Jassa, havia uma distância de 549km, sete horas de ônibus e 400 reais pelas passagens de ida e volta – para economizar, o radialista trazia o lanche de casa. A primeira tentativa de conhecer Silvio Santos foi em 2006. “Na casa dele ou no SBT, seria impossível realizar o sonho. Tinha que ser mesmo no Jassa”, bolou a estratégia. O persistente radialista, que chorou por algumas vezes na calçada do salão por não ter conseguido realizar o sonho, cruzou vinte vezes o Rio de Janeiro até São Paulo para conseguir ouvir o “Homem do Baú” falar seu nome. “Tornei-me amigo do Robson Jassa. Ele me disse que o Silvio não marca horário. Liga para seu pai e avisa que vai ao salão”, lembra. Em uma dessas ligações, Robson contou que, provavelmente, Silvio estaria por lá no outro dia, cedinho. Quando o relógio marcava 6h da manhã, Dayvid Braga já estava na porta. “Ele foi muito solicito, conversamos por cerca de 15 minutos e no dia seguinte a sua assessora me ligou com um convite para assistir ao ‘Roda a Roda Jequiti”, conta. “Tive até camarim próprio, conversei muito com o Silvio naquele dia”. O radialista, famoso na internet, já até ganhou o prêmio “Amigo do Silvio Santos”, no YouPix, por ter sete fotos diferentes com o apresentador. “Considero-me amigo, nunca uma pessoa anônima falou tanto tempo com ele”, gaba-se.

Silvio Santos e Dayvid Braga: 20 viagens entre o Rio de Janeiro e São Paulo para conseguir uma foto e um convite para visitar o SBT

Nos casos de Ricardo Pierocini e Dayvid Braga, a inspiração para esperar Silvio Santos na porta do salão veio com o programa “Pânico na TV”, que levava os repórteres Vesgo e Ceará, fantasiado como o próprio apresentador, para falar com o dono do SBT no salão de Jassa. “Muita gente tem vontade de saber como é o Silvio fora da televisão. Posso dizer que ele não tem frescuras”, elogia o humorista Wellington Muniz, o Ceará, imitador de Silvio Santos. “Quando fomos fazer o ‘Autoriza, Silvio’, ele nos atendeu superbem, nunca reclamou de nada, sempre brincava conosco”. Dayvid conta que já presenciou outra situação insólita: “Uma menina gritava que o Silvio era pai dela, porque a mãe tinha tido um caso com ele na época da caravana do ‘Peru Que Fala”. O caso não chegou a Silvio Santos, que afirma nunca ter passado nenhum constrangimento na porta do salão. No ano passado, no dia de seu aniversário, Silvio Santos ofereceu até cortes de cabelo grátis para todos que o esperavam na porta do cabeleireiro.

Para os esperançosos, que buscam o sucesso no SBT pela porta do cabeleireiro, o taxista Bernardino da Silva, que trabalha no ponto ao lado do antigo salão de Jassa, desmotiva: “Os clientes tentavam entregar a ele projetos, mas o Silvio recusava sempre, dizendo que eles deveriam ser enviados diretamente ao SBT.” O ‘patrão’ Silvio Santos confirma. “Nunca me entregaram nada de extraordinário na porta do Jassa”, é sincero. “Muitas moças pedem emprego como apresentadoras, mas jamais contratei alguém ou usei um projeto recebido aqui.” Para Ricardo Rico, a sorte está lançada.

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