Novo Livro O Guia dos Curiosos - Edição Fora de Série

Mug, o “boneco da sorte de Wilson Simonal e de Chico Buarque”, completa 50 anos

7 de novembro de 2016

Uma brincadeira entre amigos em um bar da cidade de Paris criou uma das maiores febres do Brasil em 1966. O Mug, boneco de pano da sorte de cantores como Wilson Simonal e Chico Buarque, durou pouco, não mais que cinco meses, mas foi suficiente para mobilizar o país. Passados 50 anos, ele ainda é lembrado e mexe com a memória afetiva de muita gente. De grandes cantores a falsificadores, todo mundo tentou se aproveitar da boa sorte trazida pelo amuleto. Sua criação não fez ninguém ficar rico, mas garantiu mais algumas boas histórias de um dos períodos artísticos mais intensos da história do Brasil.

Horácio Berlinck e o Mug: “Nome simples e de fácil entendimento”

O projeto do boneco Mug foi criado em 1966 por Horácio Berlinck e João Leão, ambos da equipe de criadores de O Fino da Bossa, da TV Record, programa comandado por Elis Regina. “Meu pai tinha uma tecelagem e começamos a produzir lá”, conta Berlinck. “Antes, tivemos um brainstorm para chegar ao desenho e ao nome. Buscamos um nome simples, de fácil entendimento”. Dono de um acervo impressionante de objetos, recortes de jornais e revistas e até do primeiro Mug a ser fabricado, João Leão Filho herdou do pai o gosto pelo boneco: “Quando meu pai morreu, em 1997, eu fui arrumar as coisas dele e vi que ele era o único que guardava todas as notícias”, conta. “Decidi que guardaria também. Na época eu estava começando o curso de comunicação na ESPM e achei aquilo sensacional. Um case de ‘marketing de guerrilha’ quando aquilo nem existia!”. Berlinck gosta de lembrar a ajuda que teve nessa etapa do redator Décio Fischetti e do professor Sérgio Penaquiel.

Dentre todas as estratégias para promover o produto, a primeira foi a de distribuir gratuitamente Mugs a pessoas importantes. “A gente não tinha dinheiro para pagar anúncio, então tentava colocar nos lugares mais difíceis”, recorda Berlinck. No acervo de João Leão Filho, existe uma lista de 183 nomes a quem deveriam ser enviados os bonecos. De cantores como Roberto Carlos, Elis Regina, Adoniram Barbosa e Nara Leão até humoristas como Jô Soares, Chico Anysio e Ronald Golias, passando pelos grandes nomes da mídia nacional como Otávio Frias, Mino Carta, Júlio Mesquita, João Saad, Silvio Santos e Paulo Machado de Carvalho. “Como consultor de marketing, acho incrível como eles apostaram em uma tática de influenciadores muito antes disso existir”, opina Leão.

João Leão Filho e o Mug original: lista com nomes de 183 formadores de opinião

Não demorou muito para que o boneco começasse a sair na imprensa ao lado de grandes artistas, o que fez com que ele logo se tornasse uma febre no Natal de 1966. As reportagens sobre o fenômeno se multiplicavam e até mesmo os colunistas dos jornais se renderam ao boneco da sorte. Dono de uma coluna sobre  TV na Folha de S. Paulo à época, o hoje autor de novelas Walter Negrão escreveu um texto de seis laudas para o jornal onde falava do Mug. “Ele era nosso assessor de imprensa e ajudou a gente a chegar aos jornais”, conta Horácio. A repercussão ainda se estendia a tiras do cartunista Mauricio de Souza e a textos que contavam histórias do dia-a-dia do personagem. Dentre os cantores que embarcaram na onda do Mug, o maior deles foi Wilson Simonal. No auge da carreira, o artista passou a realizar um show chamado “O MUGnífico Simonal”. “Meu pai falava que nunca ganhou dinheiro com o Mug”, afirma o também cantor Simoninha, filho de Simonal. “Classificava como uma ‘relação romântica com o negócio’ e acabou se apropriando do sucesso gerado pela brincadeira”. Horácio Berlinck confirma: “Simonal foi a grande locomotiva de todo o sucesso”.

Chico Buarque, que naquele 1967 estouraria como artista do ano, também passou a andar para cima e para baixo com seu Mug. Isso até ter o seu carro roubado. O fato teve uma repercussão enorme na imprensa, sobretudo porque o cantor alegava ter perdido alguns sambas e o seu boneco. “Os sambas ele refez, mas quer o boneco de volta”, diziam as manchetes. Os jornais passaram a acompanhar as buscas pelo amuleto da sorte até que ele fosse encontrado, junto ao carro. “Tudo não passou de mais uma estratégia para promover o Mug”, revela João Leão Filho.

O boneco estava por toda parte. Na virada do ano de 1966 para 1967, o vencedor da Corrida de São Silvestre, o colombiano Álvaro Mejia Flores, posou para fotos no pódio carregando o Mug: “O meu pai levou vários Mugs para a Avenida Paulista e distribuiu para os amigos”, recorda João. “Ele os desafiou para ver quem conseguiria entregar um para o vencedor da prova. Ele sempre contava essa história”. A cantora Inês Jordan, então um enorme sucesso na Argentina a ponto de ser chamada de “Rainha”, também foi fotografada ao lado do Mug quando veio ao Brasil. Para as gincanas da TV Record, outro sucesso da época, foi criada a “Escuderia do Mug”. Em Juazeiro do Norte, município no sul do Ceará, o carnaval do ano de 1967, um bloco chamado Bloco Folia do Mug exibiu suas fantasias estampadas de xadrez no carnaval do clube Treze Atlético Juazeirense. Os bonecos também apareceram no desfile de 1967 do Acadêmicos do Salgueiro, no Rio, cujo enredo era “História da Liberdade no Brasil”.

A cada história como essas, a procura dos brasileiros pelo boneco aumentava. Tanto que as principais lojas de departamento do país colocaram o produto em destaque nos anúncios de Natal daquele 1966. O boneco custava 9.900 cruzeiros o que, atualizando pelo Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna, da FGV, representaria, nos valores de hoje, R$ 114. Além disso, a produção se estendeu a bottons, calendários, fantasias de Carnaval e até mesmo Mugs gigantes para parques de diversões. Isso sem falar no “Baile do Mug”, realizado às sextas-feiras, na casa noturna Casa Grande, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Todos os Mugs vendidos vinham acompanhados de um livro que contava porque ele trazia boa sorte: (…) “Há inscrições nas pirâmides mostrando que Cleópatra valeu-se do Mug para conquistar o coração de Marco Antônio. Velhos manuscritos informam que Napoleão tinha muita sorte nas batalhas graças ao Mug que levava escondido no casaco (aliás, é por isso que ele está sempre naquela pose clássica). (…) Um grupo de artistas brasileiros redescobriu o Mug recentemente na Europa (…) e todos eles têm tido muita sorte. Wilson Simonal passou a ter um programa exclusivo na TV. O Simbo Trio está vendendo discos como nunca. E o desenhista Maurício de Sousa foi contemplado com uma viagem à Europa. E ainda há pouco Chico Buarque venceu o festival de música com sua composição ‘A Banda’ e a influência do Mug”.

O “Samba do Mug”, cantado por Wilson Simonal em homenagem ao personagem, é lembrado até hoje:

O boneco ganhou um quadro fixo no programa que Simonal apresentava na Record e dividiu com ele a capa do LP Vou deixar cair.  O garoto-propaganda deu vida ao Mug e colocou na contracapa desse LP uma carta escrita pelo seu amiguinho. Simonal também escreveu um samba sobre o personagem.

Carta de Mug na contra capa do LP Vou deixar Cair… de Wilson Simonal

A simplicidade da manufatura do boneco – produzido em Bragança Paulista-SP e preenchidos com cortiça importada de Portugal – ajudava os falsificadores, que ficaram com a maior parte do lucro. Por causa disso, a produção oficial da febre durou apenas 5 meses e contabilizou 150 mil unidades. “A pirataria ganhou espaço e tirou a alegria da brincadeira”, opina Simoninha. A estratégia criada para tentar reverter o caso foi a divulgação da ideia de que um Mug falsificado traria azar em vez de sorte. Apesar disso e do original ter um tecido que não era copiado, a pirataria continuou atrapalhando: “Chegou um momento onde havia mais falsificado que original”, lamenta Berlinck. “Fizemos o que era possível, chegamos a montar blitzen no Rio de Janeiro para conter os falsificadores, mas isso já era muito forte na época”.  O problema levou as publicações a noticiarem que o Mug estava passando por uma “maré de azar”. As polêmicas policiais envolvendo o Mug foram muito mais além. Em vários jornais da época foram noticiados casos de traficantes tentando carregar drogas dentro do boneco.

O meteórico sucesso da empreitada foi tão rápido quanto a sua chegada ao ostracismo, ainda antes do meio do ano de 1967. “Não tínhamos estrutura para produzir isso de forma definitiva”, aponta Berlinck. Depois, algumas poucas notas na imprensa relembraram esporadicamente o sucesso do Mug. Uma campanha chamada “Eu quero o MUG de volta!” foi lançada em forma de comunidade no Orkut em 2009 pelo próprio João Leão Filho: “Também criei blog e páginas em redes sociais, mas não consegui sustentar”, relata. Ele conta que logo que “assumiu” o acervo, em 1997, tentou de fato relançar o Mug: “Chamei algumas pessoas como o Horácio Berlinck e houve um entusiasmo muito grande”, diz. “Depois, percebemos que precisaríamos gastar muito dinheiro para que os nomes importantes da mídia fizessem o que os daquela época fizeram”. Depois disso, já mais recentemente, o Mug o levou ao encontro de Simoninha: “Marquei um almoço com ele, entreguei uma réplica do boneco, tirei uma foto (abaixo) e conversamos algumas vezes”.

Muito antes disso, porém, Horácio Berlinck e os demais envolvidos na criação do Mug tentaram criar uma espécie de adaptação do projeto original: “Uma vez tivemos a ideia de lançar o Gum, que era o Mug ao contrário. O Brasil estava em uma lama tão grande que a intenção era você mandar um azar danado pra pessoa que recebesse”, revela Horácio, aos risos. Agora um cinquentão, o Mug tem sua memória preservada na casa de João Leão Filho. O original resiste até mesmo ao tempo: “Ele está tão capenga que nem posso lavar. Também não costumo mostrar ele para meu filho de 3 anos porque está muito frágil. Mas fica aqui, na minha mesinha de trabalho”, aponta.”Tenho uma família linda, um filho lindo e sou bem-sucedido profissionalmente. Acho que ele me trouxe sorte”, acredita. Simoninha é outro que também se aproveita da fama do amuleto: “Hoje tenho um pequeno que fica em cima do meu piano, para me dar sorte e me lembrar que na música não pode faltar um pouquinho de champignon”.

Esta página contém links de afiliados. Ao fazer uma compra por um desses links, o Guia dos Curiosos recebe uma comissão e você não paga nada a mais por isso.

Artigos Relacionados

Fatia de bolo Real guardado por 40 anos

Fatia de bolo Real guardado por 40 anos

O britânico Gerry Layton pagou 1.850 libras (US $ 2.565) pela cobertura de uma fatia de bolo servida no casamento do príncipe Charles e da princesa Diana em 1981. O colecionador estava interessado pela arte do bolo, um desenho...

O menino dos Cigarrinhos Pan

O menino dos Cigarrinhos Pan

O ator Paulinho Pompéia, garoto-propaganda dos Cigarrinhos de Chocolate Pan (em 1996, a empresa mudou o nome para Rolinhos de Chocolate, para que eles não servissem de estímulo ao tabagismo), morreu em 30 de junho de 2021, aos 72 anos.   A edição de abril de 2003...

Uma barra de chocolate com 121 anos

Uma barra de chocolate com 121 anos

Uma barra de chocolate histórica foi encontrada intacta, com embalagem e tudo, 121 anos depois de produzida. A Rainha Vitória encomendou 100 mil barras de chocolate para presentear os soldados ingleses que estavam lutando na segunda Guerra do Bôeres, entre 1899 e...

1 Comentários

1 Comentário

  1. Zuleika

    Estou recuperando um desses bonecos a pessoa que é a dona o usa como amuleto é bem antigo ficou uma graça. …

    Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Share This