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O dia em que Araraquara parou para ver Jacqueline Myrna

31 de outubro de 2014

Festa no Estádio da Fonte Luminosa, em Araraquara, a 275 km de São Paulo. Eram 4 e meia da tarde de 21 de janeiro de 1968. Ferroviária e São Paulo entraram em campo para uma partida festiva. Os jogadores araraquarenses receberiam as faixas de campeões do interior do ano anterior. Mas a data ficou na história da cidade por outro motivo: a visita de Jaqueline Myrna, a estrela do programa humorístico “Praça da Alegria”.  O nome de Araraquara, dito por ela com letras “r” bem arrastadas e um forte sotaque francês, tornaram a cidade uma das mais comentadas do Brasil. A atual “Capital Mundial da Laranja” parou por um dia para ver a sensualidade, o carisma e os cabelos loiros de Jacqueline Myrna.

Com a chave de Araraquara em mãos, Jacqueline Myrna deixou a cidade em êxtase

O amistoso comemorativo marcava a entrega do “Troféu Folha de S. Paulo” para os araraquarenses, a equipe com melhor performance no Campeonato Paulista do Interior, sem os clubes grandes, que disputaram o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Brasileirão da época. A torcida, debaixo de um sol escaldante, estava em polvorosa. De dentro do vestiário, enquanto os jogadores se alinhavam em fila indiana para entrar em campo, era possível ouvir os gritos. Por trás dos atletas, surge uma moça loira, de estatura média e corpo refinado. O vestido vermelho justo, da mesma cor do uniforme do time local, exaltava a beleza. Todo o discurso feito pelo treinador Diede Lameiro já não tinha a menor importância. Os atletas contam que se desconcentraram com a beleza de Jacqueline Myrna. “Ela possuía uma cara de anjo, ficamos todos desconcertados”, lembra Maritaca, jogador da Ferroviária e admirador da “francesinha”.

Antenor, Rossi, Bebeto, Fogueira, Baiano, Machado, Jacqueline Myrna e Aldo Comito; Valdir, Maritaca, Teia, Bazzani e Nei.

“A torcida aplaudiu muito mais a Jacqueline do que os próprios jogadores”, afirma Pio, que não atuou naquela partida por ter se machucado na final do campeonato, vitória contra o XV de Piracicaba por 1×0, no Estádio do Pacaembu. Ao lado do presidente da Ferroviária, Aldo Comito, Jacqueline atravessou o gramado sob intensos aplausos. “Todos foram fabulosos, carinhosos e cheios de amizade”, recorda a estrela. Ela colocou a faixa de campeão nos atletas e se dirigiu ao meio-campo para dar o pontapé inicial da partida, que seria vencida pela Ferroviária por 3×2. “Nunca tinha chutado uma bola antes”, conta Jacqueline. “Nem percebi que meus sapatos brancos haviam se sujado. Estava empolgada com o jogo e até comemorei os gols da Ferroviária”.

Jacqueline Myrna, ao lado de Aldo Comito (com a faixa), dá o pontapé inicial da partida: “Nunca tinha chutado uma bola”

O amistoso fechou a grande festa que começou logo cedo, quando Myrna desembarcou, sozinha, em Araraquara. A ideia de trazer a artista para a cidade partiu de Aldo Comito, presidente do clube local, que também organizou a partida entre Ferroviária e o aclamado Napoli, dali a cinco meses, quando a “Locomotiva Paulista” goleou os italianos por 4×0. “Meu pai adorava trazer grandes atrações para cidade”, comenta João Carlos Comito, filho do presidente. O contato entre Aldo e Jacqueline se deu nos corredores da TV Excelsior, quando ele recebeu o prêmio de melhor dirigente do futebol paulista. “O único cachê que recebi foi a amizade e os presentes das pessoas de Araraquara”, afirma Myrna.  “Fui até lá porque queria conhecer as pessoas que moravam na cidade de meu bordão”. Recebida pelo prefeito Rômulo Lupo e por  Aldo Comito, Jacqueline foi para a Praça Pedro de Toledo, onde milhares de araraquarenses a esperavam para a entrega do troféu e a homenagem feita pela banda do 13º Batalhão Policial da Força Pública e da Escola de Samba Anjos da Vila. “Foi um dia ótimo, senti o calor e o carinho das pessoas que vinham me cumprimentar no carro conversível”, lembra Jacqueline. “Vi montanhas de gente em cada lugar por onde passei”.

Lotada, a Praça Pedro de Toledo recebeu com muita festa Jacqueline Myrna

A parada seguinte de Jacqueline foi na Câmara Municipal de Araraquara, onde recebeu das mãos do prefeito a chave da cidade, que ela guarda até hoje.  Aldo Comito, por sua vez, ganhou o título de “Cidadão Benemérito” pela prefeitura local. Como o relógio se aproximava da hora do almoço, o destino de Myrna, juntamente a Aldo Comito e Rômulo Lupo, seria o tradicionalíssimo – e extinto – restaurante Gimba, com 200 araraquarenses, incluindo dirigentes, políticos e familiares – os jogadores não estiveram presentes. O prefeito e o presidente da Ferroviária não desgrudaram de Jacqueline, o que gerou uma certa braveza  na esposa de Aldo Comito. “Minha mãe ficou com um bico danado, morrendo de ciúmes”, conta João Carlos Comito. “A Jacque era a estrela do dia.”

A sensualidade foi eternizada em Araraquara pelo fotógrafo local Geraldo Cezarino

“Os jogadores me fizeram muitos elogios, diziam que eu era linda, e também flertaram comigo”, lembra Jacqueline. O carinho do atacante Pio pela artista, demonstrado com beijos em suas mãos, gerou uma certa fofoca. “Falaram que tivemos um caso, éramos solteiros, mas é tudo balela”, afirma Pio, que era conhecido como o “Alain Delon” do time, o galã, de acordo com Maritaca. O único homem que viu a beleza de Jacqueline Myrna em cores, portanto, foi o fotógrafo Geraldo Cezarino,  que retratou a artista em fotos sensuais. “Ele tirou fotos o dia todo”, conta Jacqueline. O atacante Pio resumiu a certeza que todos araraquarenses tiveram naquele domingo: “Ela era um avião e muito simpática, foi um orgulho para cidade tê-la aqui”. Depois de 21 de janeiro de 1968, “Arrrarrraquarrra” nunca mais foi a mesma.

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8 Comentários

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  1. Gilson Gomes

    Belos tempos em que o respeito vinha antes do mito. Hoje o mito não impõe mais respeito e se não tomar cuidado…bom deixa pra lá.

    Responder
  2. Gilson Gomes

    Belos tempos em que o respeito vinha antes do mito. Hoje o mito não impõe mais respeito e se não tomar cuidado…bom deixa pra lá.

    Responder
  3. eduardo zá

    Eu mesmo tirei uma foto ao lado desta beldade nos anos 60. Foi um funcionário do estúdio ” TOBIAS “. Porém, não seei a onde foi parar a tal fotografia. A minha opinião espero que ela continue uma bela mulher, mesmo que o tempo teenha lhe castigado…

    Responder
  4. eduardo zá

    Eu mesmo tirei uma foto ao lado desta beldade nos anos 60. Foi um funcionário do estúdio ” TOBIAS “. Porém, não seei a onde foi parar a tal fotografia. A minha opinião espero que ela continue uma bela mulher, mesmo que o tempo teenha lhe castigado…

    Responder
  5. eduardo zá

    Marcelo Duarte, a sua obra é importantíssima e muito bem acabada.

    Responder
  6. eduardo zá

    Marcelo Duarte, a sua obra é importantíssima e muito bem acabada.

    Responder
  7. Mauricio Cardim

    Excelente matéria.
    Lembro também de duas fotos autografadas que eu tive, uma amiga minha sumiu com elas, lamento!!!

    Responder
  8. Mauricio Cardim

    Excelente matéria.
    Lembro também de duas fotos autografadas que eu tive, uma amiga minha sumiu com elas, lamento!!!

    Responder

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