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Minha vida de craque com o Kichute

30 de junho de 2020

Meu filho mais novo é apaixonado por chuteiras – como tantos garotos hoje da idade dele. Conhece os modelos e, para me ajudar, diz o jogador que faz propaganda de cada uma. Esta é a chuteira do Cristiano Ronaldo, aquela é do Messi. Quanto mais colorida, mais ele gosta. Não faz muito tempo, saí com ele para comprar um par de chuteiras para mim. Era o presente que ele escolheu para me dar de Dia dos Pais. Escolhi uma toda preta e ele não se conformou. Expliquei para ele que queria lembrar de meus Kichutes. Ele achou o nome engraçado. Falei que era uma mistura de tênis e chuteira. Ali mesmo na loja entramos no Google e mostrei para ele como eram as “chuteiras do meu tempo”. “É a coisa mais sem graça que já vi”, decretou.

Meu primeiro par de Kichute chegou no aniversário de 8 anos, em outubro de 1972, junto com uma bola Dente de Leite. Lembro do cheiro de borracha e até das rebarbas do solado. Oito gomos que deixavam os meninos mais altos. Havia até uma lenda que dizia que, quando o Kichute era novo, o dono marcava mais gols de cabeça. Eu morava numa travessinha no bairro de Pinheiros, em São Paulo. A uma quadra dali havia um terreno baldio, que virava o campo de futebol dos meninos das redondezas. O jogo acontecia no final do dia e era ali que estreávamos nossas chancas. Primeiro com pisões, que outros meninos davam sempre que aparecia um tênis novo no pedaço. Depois no terrão propriamente dito.

Cadarço no calcanhar ou por baixo do solado

Os Kichutes reluzentes não ajudavam ninguém a ser escolhido antes. Eu continuava sendo um dos últimos. Mas, no meu íntimo, acreditava que poderia jogar melhor com minha chuteira nova. Isso nunca acontecia. Era até difícil jogar de Kichute de novo. Ele precisava ser muito gasto para ficar bom. Por isso não os tirávamos dos pés. Eles serviam para ir à escola, para a aula de Educação Física, para o futebol à tarde. E usávamos muito, até quase furar. Quando os tiravámos, na hora de tomar banho, o cheiro era tão forte que eles acabavam indo dormir na área de serviço, tomando um arzinho para a manhã seguinte.

Quem acha que o mundo hoje está polarizado deve se lembrar da época dos Kichutes. O mundo dos meninos era dividido em dois: aqueles que amarravam os longos cadarços no calcanhar e aqueles que amarravam por baixo do solado. Eu era do primeiro time. É nova essa história de que quem amarrava por baixo do solado era craque e no calcanhar, perna-de-pau. Naquele tempo, ninguém falava nisso. É coisa recente. Só sei que o nosso terreno baldio virou um prédio de 22 andares. Pendurei os Kichutes aos 14 anos. Mas, ao vestir minhas novas chuteiras pretas, me sinto um pouco voltando no tempo. Não foram muitos gols, nem muitos lançamentos ou assistências, nem tantos desarmes. Mas os Kichutes me fazem voltar para o tempo em que eu era um craque nos meus sonhos.

Curiosidades sobre o Kichute

Há pouquíssimas informações sobre o Kichute na internet. A São Paulo Alpargatas não tem mais interesse em divulgar a marca e tirou até o site do ar. Então o que se lê são basicamente as mesmas curiosidades. Não se sabe, por exemplo, quem desenhou o modelo, qual era a medida do cadarço e coisas assim. Algumas dessas curiosidades são:

O Kichute foi lançado oficialmente em 15 de junho de 1970 – um dia depois que o Brasil bateu o Peru por 4 x 2 na quartas de final da Copa do Mundo do México. Menos de uma semana depois, a Seleção Brasileira atropelaria a Itália por 4 x 1 na final e conquistaria o tri. O Kichute começou com o pé-quente.

Em 1978, ano da Copa do Mundo da Argentina, o Kichute bateu seu recorde de vendas: 9 milhões de pares. A Kichute chegou a lançar também bolas de futebol de campo e de salão. O Kichute começou a “pendurar as chuteiras” no início da década de 2000, quando as chuteiras mais vistosas começaram a entrar no mercado.

Zico foi garoto-propaganda da marca pouco antes da Copa de 1982. O comercial dizia; “A gente logo conhece um craque de futebol. Ele tem jogo de cintura, força, fibra e muita garra. Quem começa no futebol com um craque assim tem tudo para ser um campeão”. O slogan era: Kichute… calce essa força!”. Galvão Bueno também fez um comercial de Kichute, narrando uma corrida de carrinho de rolimã. Era outra maneira de demonstrar a durabilidade do produto. Nessa época, o slogan era: “Com Kichute, quem ganha é você”.

Em 2003, o escritor Márcio Américo lançou o livro “Menino de Kichute”, que narra a infância de um grupo de meninos durante a década de 1970. O personagem principal, Beto, de 12 anos, sonha em ser goleiro da Seleção Brasileira. O primeiro obstáculo é seu pai.

O livro foi adaptado para o cinema em 2010 pelo diretor Luca Amberg. Tinha no elenco Vivianne Pasmanter, Werner Schunemann e Arlete Salles. Lucas Alexandre fez o papel de Beto. “Meninos de Kichute” ganhou o prêmio de melhor filme do júri popular da 34 ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Está no prelo “O Livro do Kichute”, do jornalista e editor Gonçalo Júnior, que traz o depoimento de 55 pessoas que já marcaram muitos gols com essa mistura de tênis e chuteira.

Uma famosa loja de calçados de Porto Alegre, Botinha da Zona, tem uma história curiosa com um Kichute. Ela funcionou entre 1919 e 2019. Em 1992, o dono Waldemar Bronzatto comprou a última leva do produto: 3 300 pares de Kichute, Um dos pares veio com numeração errada: um pé tamanho 41 e outro, 42. Bronzatto, que comprou a loja em 1954, guardou um dos pés no depósito e colocou o outro no balcão de atendimento para chamar a atenção dos clientes. Deu certo. Tinha pai que leva o filho até lá para ver o exemplar. Quando a loja fechou as portas, ele levou o par junto como talismã.

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