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Extermine o Inimigo! Livro conta a história dos blindados brasileiros na Segunda Guerra

6 de fevereiro de 2017

Em 26 de abril de 1945, um dia célebre para os brasileiros que lutaram na Itália na Segunda Guerra Mundial, o general Mascarenhas de Morais emitiu uma ordem para o capitão Pitaluga, comandante do esquadrão de blindados: “Extermine o Inimigo!”. No caso, do outro lado do front, em Collechio, estava a 148ª Divisão de Infantaria Alemã, a última que ainda tinha capacidade de combate. Os alemães estavam tentando ir para o norte, fugindo da ofensiva dos Aliados. A FEB (Força Expedicionária Brasileira) encontrou essa divisão alemã desprevenida e conseguiu uma grande vitória brasileira. Cerca de 500 alemães foram capturados  e outros debandaram desorganizadamente. Foi aí que o general Mascarenhas disse a famosa frase. “A ordem deixa claro o desejo dos brasileiros em exterminar os alemães, matar os alemães para que a guerra acabasse logo”, conta o historiador Dennison Oliveira, da Universidade Federal do Paraná, que acaba de lançar o livro “Extermine o Inimigo – Blindados Brasileiros na Segunda Guerra Mundial” (Juruá Editora). Fascinado pelas histórias da Segunda Grande Guerra, o historiador paranaense já lançou outros livros sobre o tema. “Os Soldados Brasileiros de Hitler” e “Os Soldados Alemães de Vargas”, lançados em 2008, foram os primeiros. Em 2015, Dennison publicou  “Nova História do Brasil na Segunda Guerra Mundial”.

No novo livro, a pesquisa foi direcionada para os veículos blindados que o Brasil importou. Durante a apuração, ele chegou a entrar em um desses carros. “Graças ao magnífico Museu Militar, do Comando Militar do Sul, em Porto Alegre, tive a oportunidade de entrar em quase todos esses veículos”, jacta-se. “A exceção é o Lee/Grant, que é uma raridade. Foram 109 exemplares e os únicos que sobreviveram estão no Museu Conde de Linhares, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Pude observar de perto, mas não pude entrar”. Dennison conta que alguns colecionadores brasileiros guardam algumas dessas relíquias na garagem de casa. “Não sei qual o valor exato de um deles, mas certamente não é um passatempo para professores de História”, brinca. Ele mantém ainda a página História Hipertextual no Facebook, onde também publica documentos históricos.

 

O historiador Dennisson de Oliveira lançou “Extermine o Inimigo – Blindados brasileiros na Segunda Guerra Mundial”.

 

De onde vieram esses blindados importados pelo Brasil? 
Nesse período da Segunda Guerra, eram importados dos Estados Unidos. Anteriormente importamos também da Itália fascista de Benito Mussolini e da França. Só a partir da década de 1970 o Brasil começou a produzir os seus próprios blindados.

Quantos blindados o Brasil comprou?
No início, bem pouco. Em 1921, durante a missão militar francesa, foram importados 20 unidades. Em 1938, importamos 40 tanques leves vindos da Itália. A grande expansão só veio a acontecer na Segunda Guerra Mundial, quando chegaram aqui mais de 500, quase 600 carros dos Estados Unidos.

Esses equipamentos eram novos ou de segunda linha?
Todos novos. O que não significa que tudo era perfeito. Quando importamos o M8, os Estados Unidos mandaram junto o T17, um carro velho, obsoleto, superado, que o Brasil não pediu. Mas os americanos empurraram mesmo assim.

O poder de destruição desses tanques era alto?
Os tanques M3 Stuart tinham um canhão muito pequeno. O único modelo mais moderno foi o M4 Sherman. Foi bastante complicado treinar o nosso pessoal para usá-lo. Nossas Forças Armadas precisavam estar sempre preparadas. Você pode ficar a vida inteira sem usá-lo. Mas, no dia em que precisar, se você não estiver preparado, não haverá tempo de reação. Então o treinamento tinha que ser permanente.

Quantas pessoas um carro desses comportava?
Em média, cinco tripulantes. Os Stuarts levavam quatro; os Sherman, cinco; e o Lee/Grant, um pouquinho maior, carregava até sete. Quando era preciso levar a infantaria, os infantes vinham em cima dos tanques. Assim poderiam intervir nos combates de maneira muito rápida.

O Brasil possuía condições de fazer a manutenção desses carros?
Esse era o grande desafio. À época, o Brasil tinha 70% da população vivendo em áreas rurais e 70% de analfabetos. A oferta de mecânicos era baixíssima, então era muito difícil conseguir gente para fazer a manutenção ou até mesmo para tripular os tanques. O Exército brasileiro só conseguiu atender a essa demanda – e bem – depois da Guerra.

 

Brasileiros operam M8 importado dos Estados Unidos

 

Como foi a recepção da população a esses blindados?
Os tanques viraram símbolo de reafirmação nacional. No contexto dos anos 1940, quando o Brasil tinha uma rivalidade tão grande com a Argentina, que chegou a se temer uma guerra, a chegada dos blindados americanos recebia uma imensa publicidade. Até o então presidente Getúlio Vargas desfilou em um deles durante as comemorações do aniversário da cidade de São Paulo, que nem era um evento militar. Era de um grande lote de 100 tanques que chegou em 1942. A maior parte da armada blindada do país, inclusive, ficou na capital federal, à época o Rio de Janeiro, para desfiles abertos. O resto ficou nas fronteiras. Nenhum blindado brasileiro foi utilizado nos combates da Segunda Guerra no exterior. Os brasileiros enviados para as batalhas na Itália eram equipados lá, com novos carros.

O que foi feito com esses blindados que nós praticamente não utilizamos em batalhas?
Os mais antigos não tiveram muita utilidade. Viraram peça de museu apenas. Os mais novos foram muito usados na tentativa de golpe contra a posse de João Goulart, em 1961, e também no golpe militar de 1964. Na década de 1970, o governo tentou modernizar esses carros, que já estavam obsoletos, trocando a torre original por uma torre com canhão francês. Não deu certo, mas foi uma boa tentativa. Quando perdiam a utilidade, os carros ou eram mandados para a sucata ou para os museus. Ainda bem que não precisamos usá-los.

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